Notícias

ÁFRICA: DO NASCER AO PÔR DO SOL
21/07/2010

Por Cristina Rodrigues

O que faz um corredor? Corre?
Não! Um corredor sonha em movimento!

Sempre sonhei em conhecer a África! Sonho antigo!
Quando formamos nosso grupo (Nádia, Maria, Eu e o Alê), aos poucos, fomos nos unindo e juntando nossos sonhos e idéias e... Veio a COMRADES (escrevo em maiúscula mesmo, pois é uma prova MAIÚSCULA).
Queríamos fazê-la, mais que isso, tínhamos que fazê-la.
Começamos a pensar nisso em 2008 e a idéia tomaria forma em 2009, mas em razão de um triste acontecimento com nosso amigo Alê, adiamos para 2010. Estava decidido: nós quatro iríamos para a África, correr a nossa tão sonhada COMRADES, em maio de 2010.

A partir dessa decisão conjunta, estabelecemos metas, recebemos as planilhas de treino do nosso professor Luis Tavares, o Ale adicionou algumas (muitas) pitadas de dificuldades aos treinos de fim-de-semana e a batalha começou.

Acreditem, foi muito difícil para todos nós. Exigiu disciplina, força de vontade, resistência mental e emocional, senso de união do grupo, compreensão da família e dos amigos e, claro, uma dose absurda de paixão por realizar a mais nobre das provas!

Os treinos ocorreram em locais quase “inóspitos” a corredores, principalmente se considerarmos as distâncias a que nos submetemos.
Fazíamos 50km no Pico do Jaraguá, 60 e 70 km em Alphaville e na Usp e ainda, fiz 70 km em Manaus, absolutamente sozinha. Ufa!!!

Invertemos os longões (longões de verdade!) dos sábados para os domingos, porque a Maria tinha que trabalhar e só podia fazer 30km aos sábados. Dureza?? Não... Prazer em superar a si mesma!! A união do grupo foi fundamental para dar suporte às dificuldades inerentes a um treinamento desse quilate.

A Nádia contou com o apoio de seu marido João, porque sabemos que não foi fácil abrir mão da companhia dela em razão de tantas horas de treino e do cansaço natural que vinha depois.

Eu lutava com a solidão dos treinos em Manaus; o trabalho duro em Águas do Amazonas (muitas vezes eu saia do trabalho às 23h00 e começava a treinar no dia seguinte às 5h30) e as viagens para São Paulo, para treinar com os amigos e tentar melhorar um pouco minha performance.

O Ale... Bem, o Ale agüentou nossas reclamações, queixas e dúvidas e nos deu um suporte, que só um amigo corredor poderia dar.
Ele nos incentivou, nos cobrou, orientou e acompanhou cada movimento muscular, ajudando a nos transformar num grupo de heróis (sim, sentimo-nos assim, guardadas as devidas proporções).
Amigos: foi uma batalha épica, acreditem!
E chegou o grande dia: 26/05/2010 – dia da viagem dos sonhos!
Dia de ir para a grande batalha!

E O SONHO SE REALIZA

A COMRADES foi idealizada por Vic Clapham, um veterano da 1ª Guerra, que queria homenagear seus companheiros mortos durante a batalha. Desse sonho, nasceu esse grande evento, cujo nome, significa “CAMARADAS”.
Em sua primeira edição, que ocorreu em 1921, a prova foi vencida por Bill Rowan, com o tempo de 8h59’. A corrida ocorre entre as cidades de Pietermaritizburg e Durban e o sentido se alterna a cada ano – nos anos pares começa em Durban e termina em Pietermaritizburg (considerado o sentido de subida ou up-hill) na província de Kwazulu Natal. Nos anos ímpares, o sentido é invertido (considerado de descida ou down-hill).
Alguma dica??? Sim. Alimentação diferente, fuso diferente e uma ansiedade que não cabe no coração... Faça um check up!! E mais: não há trechos planos, ou você está subindo ou está descendo...Prepare seus joelhos!!!
Chegamos ao campo de batalha: Durban na África do Sul.
Nessa cidade, de sol, gente sorridente e hospitaleira e clima de copa do mundo, é que encerraríamos mais uma etapa de nossas lutas individuais como corredores.
Chegamos ao hotel e, sem respirar, saímos para a feira.
Feira de qualidade. Adoraríamos ter uma assim no Brasil!!
Na manhã seguinte, com mais um grupo grande de corredores, seguimos de ônibus para a cidade de Pietermaritizburg, onde seria a largada, para conhecer o museu da corrida e para entender o que, realmente, nos aguardaria no domingo.
Durante o percurso, visitamos uma escola local que nos recebeu com uma apresentação emocionante de um grupo de albinos e deficientes. Foi lindo ver aquelas crianças cantando e dançando para um grupo de estranhos emocionados e felizes, apenas por estarem ali, vivendo aqueles minutos de desprendimento absoluto.
Vimos também um local em que havia as placas com os nomes e datas de corredores que, como nós, sonharam e flutuaram pela COMRADES ao longo dos anos. Era a parede de honra! Lá estava um pouco de Bill Rowan (1º vencedor, em 1921) e de tantos outros que deixaram suas marcas na história da competição.

A BATALHA: 4 CONTRA 89.280

Domingo, 30 de maio de 2010. Um dia para marcar a história de nossas vidas!
Chegamos ao local da largada, por volta de 5h00, e tivemos que nos dispersar, pois cada um sairia num curral diferente, segundo seu tempo de qualificação.
Aquela multidão de pessoas (eram cerca de 23.000) de todas as nacionalidades, sexos, idades, hábitos, fisionomias, gestos, línguas...todas estavam unidas por um mesmo objetivo: superar suas marcas individuais; superar a si mesmo!
Nesse ponto, éramos “um” e não 23.000!
A energia daquele instante ficará para sempre no nosso DNA de corredor!
Ouvimos o hino nacional da África do Sul, a música Shosholoza, que é uma espécie de hino local – quase um mantra -, cantada em Zulu e que mesmo para quem não sabe o que quer dizer, transmite, por sua energia, seu significado: siga em frente, e, em seguida, a música tema do filme Carruagens de Fogo. Pontualmente às 5h30’ o cantar de um galo e um tiro de canhão, acionado pelo prefeito, da cidade anunciaram a largada.
Descrever esse instante??? Quem há de... É único. É o resumo de uma grande história. É viver!!!
No início da prova, ainda noite, nos deparamos com pessoas pela cidade fria, se ajeitando para ver a multidão passar.
Alguns podem perguntar: que graça tem isso?? Não se trata de graça, mas de receber a energia daquela multidão de corredores que construíram por meses aquele breve instante!
Logo nos primeiros 20km, percebemos a importância da prova para aquele povo, pois apesar do trajeto ser por uma estrada, não há um só metro sem gente torcendo por você!
Na metade da prova, senti que havia energia suficiente, não só para terminá-la, mas para terminar muito bem e num tempo melhor do que o previsto.
Lembrei dos treinos, das conversas que tivemos, dos receios que meus amigos tinham e que eu, por alguma razão estranha, não conseguia sentir. Eu, simplesmente, sabia que terminaria.
A 20 km para terminar, senti que manter o ritmo e a mente focados eram as armas para aquela batalha final.
Nos último 7km, as pessoas gritavam e batiam no peito... exprimiam o encorajamento necessário para aquele instante, porque falavam do orgulho que tínhamos que sentir por estarmos terminando aquela “guerra”.
Ao entrar no estádio, o corpo flutuava, já não se sentia corpo propriamente, mas um elo de vibração indizível.
Os olhos lacrimejavam sem parar, o coração palpitava e as mãos se fechavam na intenção de socar o ar.
Ao entrar no estádio, víamos uma multidão disforme a gritar e brandir as mãos e sorrir com um sorriso aberto e feliz, intensamente feliz.
Ao cruzar a linha de chegada, a sensação foi inigualável! A sensação foi de ter vencido mil leões famintos!
Naquele instante único, percebemos que começamos a correr com os pés; que ao longo da prova passamos a correr com a mente, mas, ao final, ao cruzar a linha de chegada, foi nosso coração que nos guiou.
Sim, somos 4 que vencemos 89km!!!


©2012 ECTAVARES - Tel: 11 3231-2080/3159-8456/7722-0811 - Design Ciclo Graphics