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K42 BOMBINHAS: MAIS DO QUE UMA MARATONA, UMA AVENTURA!
22/06/2010

Por Marcelo Jacoto

A “Vila do Farol K42 Bombinhas Adventure Marathon”, ou simplesmente Maratona de Bombinhas, é um prova de que as corridas de montanhas, trilhas e praias atravessam uma notável fase de crescimento no Brasil. A 2ª edição desta “trail run” contou, inclusive, com o patrocínio da Asics, que premiou todos os vencedores de categorias com pares de tênis.

Integrante do calendário anual do circuito mundial de maratonas “K42” (que inclui etapas em percursos belos e desafiantes, como a ilha espanhola de Gran Canaria, o deserto do Saara, a reserva ecológica chilena Laguna de Aculeo, os lagos de Covadonga no principado espanhol de Astúrias, além da grande final em Villa La Angostura, a Patagônia Argentina), a cidade catarinense de Bombinhas recebeu a segunda edição desta corrida no dia 22 de maio de 2.010. E lá fui eu até o município conhecido como a “capital brasileira do mergulho ecológico” a fim de conhecer 17 das 21 praias da cidade, além de percorrer as difíceis trilhas e morros que fariam parte de minha 16ª maratona.

A aventura começou na véspera (sexta-feira, 21 de maio), quando desembarquei com minha namorada no Aeroporto de Navegantes (que dista 47 km de Bombinhas - o aeroporto de Florianópolis é outra opção de acesso, e fica a 70 km de distância do menor município de Santa Catarina), para retirar o kit da corrida, além de participar do congresso técnico e do jantar de massas.

Neste ano, a organização abriu inscrições para os 42 km, 21 km em dupla (revezamento), além de 12 km e provas infantis em diversas distâncias. A entrega do kit foi numa sala de eventos do hotel patrocinador da prova (Vila do Farol) e ocorreu de forma tranqüila. Na ocasião, recebi o número de peito, uma camiseta de manga curta na cor amarela, uma pulseira para a festa pós-maratona e um convite para o jantar de massas (havia três opções de restaurantes). Não houve entrega de chips de cronometragem, que já haviam sido objeto de muita reclamação em 2.009.

Ainda encontrei o fotógrafo ultramaratonista Marcos Viana “Pinguim” (e sua inseparável câmera) e pude analisar o percurso e a altimetria da prova, que, dentre os trechos mais desafiantes, possui variações de até 180 metros. Conhecida como a maratona mais dura e bela do Brasil, Bombinhas tem apenas 15% de asfalto em seu percurso, alternando praias e trilhas, subidas e descidas íngremes dos morros além de um trecho de costão entre praias. As chuvas que marcaram presença na cidade na semana da prova indicavam que o desafio do dia seguinte seria longo e castigante. Naquela hora entendi o porquê da organização da prova indicar como objetivo maior apenas a finalização da prova, com muita diversão e sem preocupação com o tempo de conclusão. E assim o fiz, resolvendo correr com uma máquina fotográfica a tiracolo para registrar os colegas corredores e os trechos mais bonitos e marcantes dos 42.195 metros. À tarde, visitei as praias de Bombinhas, Bombas, Zimbros e Mariscal a fim de reconhecer parte do percurso, e ainda subi até o Mirante Morro do Macaco, que oferece uma exuberante vista das enseadas das praias de Mariscal e Zimbros. O tempo permaneceu instável, alternando momentos com e sem chuva.
MAPA DO PERCURSO DOS 42 KM INDIVIDUAL E POR EQUIPES COM AS TRILHAS E AS PRAIAS QUE INTEGRAM O PERCURSO:

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À noite, em meio a algumas rápidas pancadas de chuva, encontrei diversos colegas maratonistas no congresso técnico e no jantar de massas (Celso Bruder, Rodrigo Damasceno, Carlos Hideaki, Yara Achôa, Harry Thomas, dentre outros). No congresso, assistimos à exibição de um pequeno filme sobre a 1ª edição da maratona, recebemos instruções acerca do percurso e conseguimos uma importante vitória por esmagadora maioria em consulta popular e democrática: a liberdade para usar camiseta própria na maratona, haja vista que, até aquele momento, o regulamento da prova obrigava a todos os corredores amadores que corressem com a camiseta entregue no kit. A distribuição dos atletas inscritos em três restaurantes ajudou a não lotar nenhum dos lugares escolhidos. Porém, o jantar de massas do restaurante “Comebem” foi simples, deixando um pouco a desejar na reposição de massas e saladas.

Na manhã de sábado, encontrei o colega Celso Bruder e caminhamos dos nossos hotéis até a largada. Entre os 400 metros de distância que percorremos, chegamos a presenciar sol e chuva em pouco mais de cinco minutos. No pórtico de largada montado na praia de Bombinhas, encontrei alguns atletas conhecidos e notei que os hermanos argentinos representavam pelo menos metade dos inscritos na maratona. O sinal da largada soou pontualmente às 8 horas. A emoção foi grande, assim como a certeza de que levaríamos muito tempo para passar pelo mesmo local no momento da chegada.

Os primeiros metros da maratona são pelas areias fofas da praia de Bombinhas, que não chega a ter 1 km de extensão. Já no início percebe-se que a faixa de areia é estreita e não há como escapar da água do mar. Molhar os tênis é inevitável, apenas uma questão de tempo. Ao final da primeira praia, todos os corredores enfrentam uma leve subida e um pequeno trecho de asfalto que desemboca na praia vizinha (Bombas), que tem 2 km de extensão. Quando cheguei à Bombas, a chuva voltou a marcar presença. São Pedro realmente não daria trégua aos maratonistas durante todo o sábado. Depois da praia, nova área urbana pela Rua Martim Pescador (a lama substituiu o asfalto), num percurso que lembra muito a Meia Maratona da Trilheira de Ribeirão Pires, conforme observou o fotógrafo Pinguim. Na altura do 5° km, conheci dois simpáticos corredores argentinos (Sérgio e Fernando), avistei o experiente ultramaratonista Zancopé e notei falta de orientação por parte do pessoal de apoio no retorno dos corredores da prova de 12 km, sendo que vários atletas erraram o percurso. Minhas paradas estratégicas para tirar fotos fizeram com que muitos pensassem que eu estava cobrindo o evento (risos).

A partir do sétimo quilômetro surgiram as primeiras subidas (50 metros de variação entre o 7º e o 9º km) junto com uma forte chuva. Grande parte dos corredores começou a caminhar, haja vista que todos nós iríamos precisar guardar energias para o que ainda estava por vir. Adentramos em trechos de mata fechada: as trilhas tinham muitas poças d’água e caminhos estreitos. O percurso era demarcado com pequenas fitas zebradas de plástico amarradas em galhos de árvores: não era tarefa impossível errar o caminho. Completei a primeira hora com quase 8 km percorridos, bem satisfeito com o desempenho. Porém, entre o 10º e o 12º km surgiu o trecho mais complicado: uma subida contínua de 180 metros de variação altimétrica no Morro das Antenas. Nos dois quilômetros seguintes foi repetida a mesma variação altimétrica, só que, desta vez, para descer, o que era difícil de ser feito em pé, pois as trilhas estavam extremamente escorregadias e cheias de erosão. Alguns optaram descer de “esqui bunda” (descer agachado e escorregando a bunda no solo), outros tomaram tombos cinematográficos. Impossível não ganhar um arranhão nos braços ou nas pernas. O meu ritmo foi “para as cucuias” neste trecho, em razão do alto grau de dificuldade e do meu medo de quebrar a câmera fotográfica que ficou o tempo inteiro em minha mão esquerda. O alívio surgiu quando avistei à minha esquerda as praias da Lagoa e do Cardoso. Terra à vista! (risos) Após superar algumas pedras bem lisas, alcancei a faixa de areia da praia da Lagoa. O visual do litoral da cidade de Bombinhas era inspirador, mesmo com o tempo nublado.

A seguir, o percurso permaneceu pela orla, seguindo pela selvagem praia de Zimbros. Em determinada passagem, não havia como correr pela areia e o mar alcançava as canelas, para alegria dos fotógrafos profissionais estrategicamente posicionados para registrar os corredores nesta parte do percurso. Neste trecho mais plano foi possível aliviar os joelhos e aumentar o ritmo. Já na praia de Canto Grande e após 3 horas de prova, estava concluindo a primeira metade da prova, passando pelo pórtico de revezamento das duplas no 21º km. Tudo sob controle, afinal, o tempo máximo para conclusão da maratona é de 9 horas.

Porém, a segunda metade não prometia ser moleza, vez que o percurso voltou às trilhas e subidas, com muito barro, mata fechada e até uma gruta no caminho. O próximo desafio seria subir 100 metros até o Mirante Eco 360 graus, localizado entre as praias de Canto Grande, Tainha e Conceição. Neste momento, já me sentia bem solitário pelo percurso, pois os atletas mais velozes já estavam a quilômetros de distância e poucos retardatários seguiam em meu encalço. A beleza local era o único alento, a inspiração necessária para seguir em frente. A descida de 100 metros até o 26º km foi igualmente difícil, pois havia paralelepípedos escorregadios e trechos com muita lama e espinhos no acesso à praia de Conceição. Em seguida, já quase com 30 km rodados, foi a vez de passar pelos 4 quilômetros de extensão da praia de Mariscal, conhecida por seus mariscos e ostras, e pela vegetação de restinga. Neste trecho, as ondas fortes do mar cobriram praticamente toda a faixa de areia da praia, dificultando ainda mais o trote.

Vencida a praia de Mariscal, o percurso voltava às subidas de asfalto, a caminho das praias de Atalaya e Quatro Ilhas. A chuva já havia dado uma trégua e o sol surgia timidamente no céu de Bombinhas. À distância, era possível avistar o hotel Vila do Farol, local da largada e chegada. No entanto, não obstante a proximidade das praias, era necessário percorrer mais 9 quilômetros para ter a missão cumprida. Na praia das ilhas Arvoredo, Macuco, Deserta e Galés foi possível reencontrar alguns colegas após mais de 5 horas de prova, vez que era preciso correr toda a faixa de areia das Quatro Ilhas, adentrar uma pequena trilha de 1,5 km do Morro do Atalaya e voltar pelo mesmo lugar para, enfim, seguir para as últimas praias antes da chegada.

Por faltar apenas 5 km para a chegada, me animei e imaginei que logo terminaria com este “sofrimento”. No entanto, estava redondamente enganado, pois a trilha que separa 4 Ilhas da praia do Retiro dos Padres era extremamente íngreme (100 metros de variação altimétrica) e tão escorregadia quanto sabão. E quando não esperava mais que pudesse surgir algum obstáculo ainda pior, eis que me deparo com um perigoso costão entre as praias de Retiro dos Padres e Sepultura no 39º km, com enormes pedras na diagonal a serem superadas. O cansaço acumulado, a vontade de terminar, a dificuldade para escalar as pedras (nesta altura, a maratona estava mais próxima de uma prova de alpinismo do que de uma corrida) e o medo de perder a máquina fotográfica com o registro de quase toda a prova fez com que eu considerasse este o mais delicado e insano trecho de toda a maratona. Desafio superado, faltavam apenas 2 km para o fim, e, após uma breve passagem pela praia de Sepultura (que fica em frente à orla da praia de Bombinhas), corri o quilômetro final na direção da chegada. É verdade que não havia mais muitas pessoas aguardando após 7 horas e 20 minutos de prova. Mas, mesmo assim, foi emocionante atravessar o pórtico de chegada, receber a medalha e a camiseta preta manga comprida de “finisher”, ganhar um beijo da amada e cair em uma piscina infantil para, literalmente, lavar o corpo e a alma. Valeu demais! Os que chegavam logo a seguir relatavam, emocionados, sobre a dificuldade do percurso que, segundo alguns, lembra bastante a prova “Praias e Trilhas” (competição de percurso similar realizada em Florianópolis, com dois percursos de 42 km a serem concluídos em dois dias).

A organização da prova ofereceu água, frutas e bolachas na chegada, mas senti a falta do fornecimento de isotônico, bebida extremamente importante para uma competição de longa distância deste porte. No geral, a organização deixou a desejar um pouco na orientação (algumas pessoas do staff chegaram a abandonar seus postos nos quilômetros finais) e no kit, que poderia ser mais completo, tendo em vista o valor exorbitante da inscrição. A organização ainda pecou por incluir os cinco primeiros da classificação geral também na premiação por categorias, e por não diferenciar a medalha entre aqueles que correram 42 km, 21 km em dupla ou 12 km.

O grande campeão deste ano foi novamente Gilliard Altair Pinheiro, atleta local, com o impressionante tempo de 3 horas e 32 minutos (quase 30 minutos a mais que o tempo de conclusão de 2.009 em função das chuvas que tornaram o percurso muito mais desafiador). O segundo colocado, José Virginio de Morais, fechou com 3h38, seguido do triatleta Daniel Meyer, que cravou 3h54minutos. No feminino, Débora Aparecida Simas também conquistou o bicampeonato com o tempo de 4h34min. Na cola de Débora estiveram Virginia Galvez (4h36) e Andréia Henssler Koetz (4h48).

No domingo de manhã, sob sol firme, foi a vez da criançada de 4 a 16 anos percorrer distâncias variáveis de acordo com a idade (de 300 metros até 3 km) e fazer a festa, para orgulho dos papais maratonistas. Por falar em festa, foi realizada em uma sala de eventos do hotel Vila do Farol, na noite de sábado, uma animada confraternização pós-maratona (com direito a som variado de DJ) com o propósito de reunir os corredores e exibir fotos e vídeos da corrida.

Enfim, correr a Maratona de Bombinhas é uma experiência única e desafiadora, e como afirmou a colega Yara Achôa, uma mistura de sensações (felicidade, medo, dor, superação, raiva, euforia) que vale a pena ser experimentada em razão da dificuldade e da beleza natural do percurso e do município de Bombinhas, caso o corredor esteja cansado da mesmice do asfalto nas maratonas. Entretanto, recomenda-se uma longa preparação com muitos treinos de subida, bem como melhoras dos organizadores em alguns pontos cardeais da prova.

Para você ter um pouco mais de idéia sobre o percurso da maratona, além das fotos que ilustram a matéria, confira também o vídeo oficial da edição 2010 neste link: http://www.vimeo.com/12382500


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