Notícias

BR135 ULTRAMARATHON – 217KM – Fui, vi e venci o desafio ....
04/06/2010

Por Reginaldo

Vou começar pelo final: Consegui concluir a prova em 56h55min com muitas bolhas nos pés, muita alegria, e com uma longa história pra contar para os amigos e quem sabe para os netos. Ah, e fiz 222km ao invés de 217km. Quando tiver tempo leia, acho que é uma aventura que merece ser contada.
O que é a BR135?
Com uma distância de 135 Milhas (217Km) a serem percorridos em até 60 horas a BR 135 Ultra juntamente com a Jungle Marathon são as provas consideradas as mais difíceis do Brasil.
Todo o percurso é realizado nas Montanhas da Serra da Mantiqueira nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Esta prova criada pelo ultramaratonista Mário Lacerda, realiza-se no trecho de maior dificuldade do Caminho da Fé. A BR135 Ultra realizou este ano sua sexta edição. O Caminho da Fé http://www.caminhodafe.com.br/mapa.html é o berço dessa corrida. A BR 135 Ultra faz parte da Copa do Mundo de Corridas de 135 Milhas -”BAD135 World Cup” – uma iniciativa da empresa americana AdventureCorps promotora da corrida Badwater 135 no Deserto do Vale da Morte na Califórnia – USA que é dirigida por Chris Kostman. Esta Copa do Mundo de corridas em ambientes de máxima dificuldade já é considerada a série mais difícil do planeta e é formada pelas provas:
• Badwater Ultramarathon – Corrida no Deserto.
• Arrowhead Ultramarathon – Corrida no Gelo.
• BR 135 Ultramarathon – Corrida nas Montanhas.
A BR 135 Ultra é extremamente difícil porque é toda realizada nas montanhas da Serra da Mantiqueira, e apenas 20 dos 217 km de toda a corrida são planos. O atleta ao longo da prova “sobe e desce” um Monte Everest, com um total de mais de 10Km de subida e aproximadamente 9 km de descida acumuladas.
Não é qualquer pessoa que pode fazer esta prova. Para se inscrever a pessoa precisa ter um curriculum de provas de Endurance (resistência) e já ter feitos provas de Ultramaratona (100km, 24h, etc) e provas de Montanhas (Praias&Trilhas por exemplo). Uma comissão analisa os curriculuns para aprovação.
Percurso: De São João da Boa Vista (SP) a Paraisópolis (MG) – 217km
Relato da prova
Eu, minha esposa Raquel e minha comadre Sandra chegamos em São João da Boa Vista na sexta-feira, 22/01, por volta de 10h30min para o congresso técnico no clube da cidade, e ao chegarmos o Congresso estava praticamente no final.
Tiramos várias fotos, comprei o livro do Valmir Nunes http://liverun.blogtv.uol.com.br/2007/11/06/valmir-nunes--bio que estava lá para autografá-lo, e ficamos para o almoço no mesmo local oferecido pela organização.
Fui para a prova como Pacer da corredora Tomiko Egushi que em 2008 foi a campeã feminina e 11ª. no geral com o tempo de 48h 4min.
Para fazer esta prova solo, você precisa primeiro fazer a prova em trio, no ano seguinte em dupla, ser Pacer, e aí ser inscrito como o corredor principal. Pelo meu curriculum consegui ser Pacer na primeira vez e lá fui eu, ou melhor lá fomos nós, eu, minha querida esposa Raquel que sempre me acompanha nestas loucuras, e minha comadre Sandra pra ficar no carro de apoio com minha esposa.
Não tinha qualquer pretensão em relação a tempo, a não ser tentar terminar dentro de 60 horas limites junto com a Tomiko, e principalmente ajudá-la a concluir a prova.
Na sexta o jantar em um restaurante perto do Hotel demorou a ser servido e minha idéia de dormir cedo foi por água abaixo, indo dormir próximo de meia-noite.
Levantei 05:30h após uma noite onde acordei algumas vezes, tomei um banho pois não tinha a menor idéia de quando iria fazer isto novamente, e fui tomar um café reforçado no Hotel. Após o café voltei ao quarto pra fazer um check list do batalhão de coisas que iria levar na minha camelbak e no carro de apoio.
A largada era a 150m do Hotel, e aproveitei pra chegar uns 40 minutos antes e tirar mais fotos. Conheci pessoalmente o Márcio Villar www.marciovillar.com , um carioca muito simpático, primeiro atleta a ter feito as 3 edições da BAD135 World Cup (Badwater, Arrowhead e BR135), e estava ali para ser também o primeiro a fazer a Double BR135, ou seja, ele havia já feito o trajeto contrário de Paraisópolis a S.J.Boa Vista, chegado na sexta de madrugada, e agora no sábado pela manhã iria iniciar o trajeto de volta S.J.Boa Vista a Paraisópolis. Pasmem, o homem iria fazer 434km, e olha que ele tenciona fazer o Double das outras duas provas.
Hino Nacional, muita emoção, orações, cada um dentro da sua crença e fé, e pontualmente no sábado 23/01/10 às 08:00h é dada a largada.
A primeira cidade que iria encontrar o carro de apoio era Águas da Prata/SP, 18km aproximadamente da largada. Começamos com um ritmo acima do programado, em torno de 7 minutos o km (a previsão era de 10 minutos), quem sabe pela euforia, ou talvez pela facilidade do trajeto inicial onde as subidas eram pouco acentuadas.
Como estava de Pacer tive que seguir a Tomiko e tentar contê-la pois sabia que esta euforia poderia nos custar muito caro mais pra frente.
O ritmo de 7min/km chegou a baixar em alguns trechos o que nos fez alcançar equipes de revezamento. Ultrapassamos nossa amiga de longões, a ultramaratonista Hedy Lamarr da 100limites, que estava fazendo a prova em trio, que comentou que estávamos em um ritmo muito forte. Realmente era verdade pois os trios tem o limite de 36h para concluir a prova, as duplas 48 horas e os solos 60 horas.
Neste trecho passamos por dentro da mata, o que me fez lembrar a linda e difícil ultra de Montanhas Praias&Trilhas em Florianópolis. Começava ali a se desenhar o que seria a prova.
Como de costume tive que fazer um pit-stop para ir ao banheiro (entenda mata fechada), e ao retomar tive que acelerar muito o ritmo para alcançar a Tomiko que simplesmente deslanchou e desapareceu. Foi neste momento que percebi o quão forte estávamos. Este trecho tinha também muitas pedras e descidas acentuadas.
Chegamos em Águas da Prata bem antes do previsto e paramos para nos alimentar no carro de apoio. Comi um sanduíche, bebi um pouco de Pedialite para evitar a desidratação, e alguns preparados indicados pelo nutricionista. A Tomiko não aceitou comer nada e se limitou a tomar meia Coca-Cola e já aí comecei a me preocupar com ela. Em uma prova deste tipo a reposição alimentar e líquida é fundamental, e na minha visão todos deveriam passar por um nutricionista, pois sem combustível certo o carro pára, e não duvidem, ele pára mesmo.
Após uns 20 minutos de descanso fomos rumo ao segundo ponto 12km á frente, o pé do Pico do Gavião, este sim um morro pra nenhum mortal por defeito. Aliás o nome já diz tudo não é? Este pico é tão alto que nem gavião eu vi lá, apenas alguns loucos de paraglaider, que obviamente subiram de carro.
De Águas da Prata até o topo do Pico do Gavião, aproximadamente 17km, o desnível chega a 817m. Para se ter uma idéia do que isto significa, para quem conhece a subida da Biologia da USP (Matão) tem 20m de desnível.
Na saída de Águas da Prata rumo ao Pico, percebi que Tomiko começou a reduzir a velocidade, o que era bom, visto que havíamos puxado muito no começo, porém a redução foi tão drástica que ao invés de trotar ela começou a andar e sua fisionomia até então confiante e contundente, dava lugar a um olhar agora cansado e distante.
Fiquei preocupado e nesta hora se aproximou de nós o Jaiminho, finisher de outras BR135, e que com suas histórias de corrida nos deu uma injeção de ânimo. Tomiko certa altura começou a caminhar com ele, e eu pra não me sentir castigado por uma mudança tão repentina de ritmo, trotava, caminhava, mas sempre observando a Tomiko, que oscilava agora entre caminhada e algumas tentativas de trotes.
Nesta toada chegamos ao pé do Pico do Gavião e estava previsto ali pra minha esposa Raquel nos dar algo pra comer, mas pra minha surpresa ela não estava nos aguardando. Como há várias equipes de apoio e todas extremamente solicitas, não foi problema conseguir algo pra comer, o que aconteceu com a Sonia, esposa do amigo Rosivaldo (solo) que estava com uma Mega equipe de apoio. Novamente a Tomiko rejeitou algo pra comer, apenas ingeriu líquido e dizia: ‘Não desce nada’. Eu estava bem e sem nenhum senão.
Por tudo que ouvi dizer sobre o Pico e pelo desnível extremamente acentuado temi que a Tomiko não conseguisse subir, mas ela demonstrou muita garra e foi em frente. A subida foi um misto de trote e caminhada e vez ou outra tínhamos que abrir a boca (simular um bocejar) para que os ouvidos desentupissem, tamanho o desnível. Após 5km de subida e muito estorço chegamos ao topo.
Tomiko logo viu um banco e foi sentar-se, estava pálida e gelada o que mostrava que sua pressão estava alterada. Havia uma lanchonete lá em cima, e ofereci algo pra ela comer e beber que poderíamos comprar. Novamente ela recusou e apenas aceitou uma latinha de Coca-Cola que consegui tomar pouco mais da metade.
Aproveitei para ver umas dores na sola do pé, que na verdade estavam preconizando bolhas que mais tarde seriam meu grande tormento. Ficamos no Pico por quase 30 minutos descansando e agora tínhamos que descer, o que é tão difícil quanto subir, pois as articulações são muito exigidas e o impacto nos ossos é várias vezes a do nosso peso.
Começamos a descida e por vezes a Tomiko ensaiou trotes que em certa altura tornaram-se mais constantes, o que me animou.
Chegamos ao pé do Pico novamente (na descida chega-se ao mesmo ponto onde foi iniciada a subida) e nada da minha esposa, foi quando o Ray, técnico da equipe 100 limites, me informou que ela estava após um ‘riozinho’, que ela preferiu não passar para não arriscar ficar com o carro atolado.
Avistei o carro a uns 200m, e fomos até lá pra nos alimentar como o programado. A Raquel e minha querida comadre Sandra haviam conseguido comprar uma macarronada caseira simplesmente maravilhosa. Foi certamente uma das melhores macarronadas que comi na vida. Tomei os preparados receitados pelo nutricionista e procurei comer rigorosamente o que ele determinou. Tomiko em contrapartida mal deu duas garfadas na macarronada e repetia a frase: ‘Não desce nada’.
Aproveitando o riacho próximo, Tomiko resolveu ir se refrescar e jogar uma água no corpo, o que foi seguido por mim. Tirei a camiseta, joguei água no corpo e fiz um breve alongamento pra seguir em frente, rumo agora a Andradas, aproximadamente 12km dali.
Neste trecho Tomiko passou muito mal. Paramos por diversas vezes e mal ela conseguia caminhar. Pela sua fisionomia pálida e pele gélida, dei um pouco de sal pra ela consumir e uma azeitona, o que foi recusado quase que instantaneamente pelo seu organismo, pois em seguida ela vomitou. Este vômito se repetiu por mais duas vezes no trajeto até Andradas, e nesta altura outros atletas que estavam muito atrás de nós começaram a nos passar, inclusive meu grande amigo Paulo Motta, que estava mais de 5km atrás de nós.
Pra terem um idéia, nossa velocidade que no início era por volta de 7min/km, agora estava em torno de quase absurdos 20min/km. Durante este trajeto carreguei a camelbak da Tomiko, e fui persistentemente chato em tentar fazê-la comer, o que foi recusado por ela todas às vezes. Tentei incutir na cabeça dela que o melhor seria descansarmos em Andradas o tempo que fosse necessário para estarmos aptos a encarar a primeira noite. Vale comentar que inicialmente a previsão da Tomiko era fazer a prova abaixo de 48h e não dormir, embora minha previsão, como já citei, sempre foi a de não se preocupar com o tempo, e apenas procurar concluir no limite de 60 horas.
Após um longo tempo, e acrescente longo nisto, chegamos ao Posto de Controle de Andradas, praça Central, próximo a igreja Matriz como em todas as cidades, por volta de 18:30h, e lá estava Raquel e Sandra nos aguardando, além obviamente de várias outras equipes de apoio e de pessoas da organização da prova.
Tomiko ao chegar pegou de imediato um colchonete no nosso carro de apoio e foi deitar-se na praça. Pedi a Sandra para procurar a equipe médica da organização pra diagnosticar o que estava acontecendo com ela, e fui me alimentar pois estava programado ali nosso jantar. Ao terminar de comer fui informado que o pessoal da organização verificou que a pressão da Tomiko estava muito baixa, e ela apresentava um quadro de exaustão, desidratação, leve desorientação e palidez. Por conta de tudo isto resolveram chamar uma ambulância para transportarem-na para o Hospital, e informaram que a corrida pra ela tinha chegado ao fim.
Neste momento fiquei em transe, pois tudo que havia programado pra fazermos juntos estava indo por água abaixo, inclusive estava se aproximando a noite e teria que encará-la sozinho. Vale comentar que como Pacer, poderia continuar sozinho caso a pessoa com quem eu estivesse desistisse.
Para não deixar Tomiko sozinha pedi a minha esposa para acompanhá-la até o Hospital, e enquanto ela ia junto na ambulância, minha comadre Sandra foi com nosso carro seguindo-as.
Eu, neste momento pedi forças ‘aos céus’, enchi minha camelbak com sanduíches, isotônicos, géis, frutas, sementes, etc, e fui em frente sozinho rumo a Serra dos Lima. Já estava escurecendo e o tempo se fechando o que anunciava que a noite teríamos chuva.
Na Serra dos Lima, primeiro Checkpoint sabia que haveria uma boa infra-estrutura nos aguardando, inclusive com possibilidade de comer algo, tomar banho e até dormir. O problema seria chegar até lá.
Na saída de Andradas encontro o Rodolfo, veterano da BR135, corredor da equipe Branca Sports, e fomos um tempo juntos conversando. Ele me perguntou da Tomiko, contei a ele o que havia acontecido, e ele chateado lembrou que algo similar havia ocorrido com ela também no ano anterior.
Pelo fato de ter ido muito lento no trecho anterior, e mesmo já estando em atividade por mais de 10 horas ininterruptas, estava com vontade de correr, e como Rodolfo estava com um trote muito leve, me despedi e segui em frente sozinho. Aí começava meu grande problema.
Aproximadamente uns 10 minutos após ter deixado-o pra trás, ainda no pouco trecho de asfalto da prova, não vi a seta amarela indicativa de trajeto e em uma bifurcação segui em frente ao invés de virar a direita. Como já era noite e estava com a lanterna de cabeça ligada, imaginei (e conselho nunca imagine em uma prova destas) que o certo seria continuar sempre em frente e não me incomodei em ver as setas amarelas. Ah, no congresso havia sido explicado que a cada 200m havia setas amarelas indicativas e à noite fitas reluzentes junto com estas setas, ou seja, se alguém percorresse 200m e não visse uma seta, era o indicativo que o caminho estava errado. Ao correr por volta de 2,5km chego a outra bifurcação e aí sigo em frente. Corro uns 300m e paro, e aí me lembro que não vi uma seta amarela indicativa, e sabia que em todo cruzamento ou bifurcação, conforme dito no congresso técnico, isto deveria acontecer. Volto para a bifurcação, ilumino a cerca de arame com a lanterna de mão que auxiliava minha iluminação, e nada de seta amarela. Entro na bifurcação, e percorro uns 200m e vejo uma casa isolada, que por sorte tinha uma pessoa do lado de fora. Pergunto ao senhor o caminho para a Serra dos Lima e sou informado que estou no caminho incorreto, e tenho que voltar agora morro acima os 2,5km errados.
Não sei se vocês já correram a noite no meio do mato, alguns já devem ter feito a prova de Extrema (24km em MG) e a sensação é similar, ou seja, estamos no meio do nada, um silêncio por vezes irritante, uma escuridão total, e você torce pra lanterna não falhar e pra não pisar de mal jeito o que significaria o final da prova.
Voltei correndo na subida visto que naquele momento a única coisa que eu pensava era retomar o caminho certo e ver finalmente as tais setas amarelas. Começam a cair os primeiros pingos de chuva, e mal sabia que a chuva não viria pra brincar.
Após o que me pareceu uma eternidade, chego ofegante finalmente ao trevo onde cometi o erro de trajeto e encontro um carro da organização que estava ali pra auxiliar os atletas a não cometerem o meu erro, mas eu azaradamente passei antes dele chegar, o que me fez tomar a rota incorreta.
Já mais calmo e o coração desacelerando, encontro um casal que também havia se perdido em outro trecho e resolvemos seguir juntos.
Este casal era formado pela Jaqueline Terto e o americano Tom Sperduto. Jac como é conhecida estava de Pacer do americano, e pra quem não a conhece, ela foi a primeira brasileira em 2008 a ganhar a Jungle Marathon, Ultramaratona de 220km que acontece na floresta Amazônica http://www.adventuremag.com.br/php_news/news.php?category=5&id=2534 .
Tom era da marinha americana e esta era sua primeira BR135, embora já tivesse feito provas de 100km e 160km nos EUA.
Vamos juntos rumo a Serra dos Lima. Pra ficar mais emocionante começa a chover e nossas lanternas que mal iluminavam 2 metros à frente agora iluminam menos ainda, e o perigo do piso escorregadio aumenta a tensão.
As subidas começam a surgir, o que adiciona mais um componente de dificuldade. Jaqueline, que em 2009 foi segundo lugar feminino na BR135, e só perdeu pois também errou o caminho e gastou mais de 1 hora com isto, por conhecer o trajeto nos alerta que as subidas até o checkpoint são fortes e exaustivas - novidade.
No meio daquela escuridão chega o carro de apoio do Tom com Antonio e Christina, um casal maravilhoso que no decorrer da prova nos ajudou muito. Eles traziam simplesmente uma pizza, que imaginem, devoramos e nos deu energia pra encarar as grandes subidas na chuva. O interessante desta prova é que quando uma subida termina e você acha que vai ter folga, ou vem uma longa descida íngreme ou logo em seguida inicia-se outra subida, sempre pior que a anterior.
Às vezes nos distanciávamos, mas naquela altura a intenção dos 3 eram ficar o mais próximos possíveis, pois com a pouca visibilidade a probabilidade de nos perdermos era grande. A chuva aumenta o que me faz parar e procurar minha capa de chuva, que depois descubro não estar na bolsa.
No meio do trajeto um dos dois celulares que levava comigo começa surpreendentemente a tocar (celular é algo que não funciona naquela região). Era minha amiga Marina da equipe 100 limites, que veio acompanhar a largada e esteve auxiliando no apoio de pessoas de sua equipe no primeiro dia. Ela estava ligando de Campinas, voltando para São Paulo. Ela me dá informações de Tomiko, e comenta que ela havia sido medicada, iria descansar na cidade e iria retornar a prova pela manhã. Fico feliz e surpreso, pois ela estava muito mal quando a deixei em Andradas
O carro de apoio novamente nos encontra e improviso uma capa com um saco de lixo e seguimos em frente, pra variar encarando outra subida. Após inúmeros altos e baixos chegamos às 23:55h a Serra dos Lima, primeiro checkpoint e local da pousada da Dona Natalina, figura pitoresca e extremamente agradável, típica moradora do interior. Estávamos nesta altura com 77km de prova.
Logo ao entrar na grande área coberta do local, sou abordado por uma pessoa da organização que me pede pra procurar Luiz Lacerda, um dos fiscais. Enquanto isto, os demais corredores que se amontoavam pelo local devido a chuva, faziam os procedimentos de praxe: coleta de urina, pesagem e análise médica pra saber como estavam as condições físicas gerais.
Ao encontrar com Luiz Lacerda sou avisado que deveria dormir ali e aguardar pela manhã a Tomiko que havia sido liberada pelos médicos e iria descansar em Andradas para na manhã seguinte recomeçar a prova, e que ela só poderia continuar se eu estivesse junto. Informaram que ela não havia tomado nada intravenoso (o que desclassifica o atleta), e havia apenas sido medicada com comprimido e que o problema, pelo que entendi, era uma desidratação. Minha esposa iria passar a noite com ela e de manhã a acompanharia até a Serra dos Lima para me encontrar e seguirmos juntos.
Como meu objetivo primeiro era ir junto com a Tomiko e ajudá-la a concluir a prova, visto que era seu Pacer, não hesitei em obedecer, e com isto fui tomar um banho e comer algo. Despedi-me da Jaqueline e do americano Tom, amigos de subida da Serra que não iriam dormir e sim continuar direto, e consegui com o Luiz Lacerda uma roupa limpa e por volta de 01:00h estava me deitando em uma até que confortável beliche. Nas outras beliches vários outros atletas descansando pra continuarem mais tarde a jornada. Demorei a dormir, certamente pela adrenalina que estava pelo corpo todo, e após um sono onde acordei várias vezes, por volta de 06:00h me levanto e percebo que apenas eu estava ainda dormindo, todos os demais corredores já haviam seguido caminho. Tento ligar para minha esposa de um dos 2 celulares que carregava comigo, mas se alguém já esteve por esta região sabe, que a probabilidade de um celular funcionar é inexpressiva. Peço ao pessoal da pousada para usar o telefone fixo e ligo para o Hotel em Andradas onde minha esposa estava com Tomiko. Segundo minha esposa Tomiko já estava pronta pra vir até mim, e só iria tomar café. Faço o mesmo, me apronto, tomo café, preparo a camelbak e fico no aguardo da Tomiko chegar.
Como sabia que Tomiko não teria vida fácil pra literalmente subir a Serra, torci pra que ela conseguisse, pois isto significaria que ela estaria recuperada. Minha esposa estava vindo também de carro para seguir Tomiko, e como tinha que aguardá-las fiquei conversando com um casal de corredores (ele inglês e ela Australiana) que haviam desistido e tinham muitas histórias de ultramaratonas pra contar.
Por volta de 09:15h chega um veículo da organização trazendo o atleta Júlio Latini, que havia dormido também em Andradas, e no veículo estava também Tomiko. Logo atrás minha esposa e minha comadre no carro de apoio. Ambos desistiram no caminho para a Serra dos Lima e foram resgatados. A Tomiko estava com a mesma expressão pálida do dia anterior, e embora tenha sido guerreira em tentar continuar, seu corpo não compartilhou da mesma idéia. Perguntei a Tomiko se ela queria que voltássemos até o ponto ela foi resgatada para continuarmos a prova, mas ela estava muito mal, e sequer conseguia ficar de pé.
A idéia de correr com alguém novamente foi por água abaixo, e me vi novamente sozinho, mas mesmo assim não me abati e resolvi seguir em frente, pois como Pacer poderia terminar a prova sozinho.
Minha esposa permaneceu com Tomiko para combinarem onde ela gostaria de ficar.
Nesta altura do campeonato, 09:25h da manhã, eu era o último colocado, e impulsionado por uma força que nestas horas não entendemos direito de onde vem, comecei a correr. Tomiko foi levada pela organização para Paraisópolis (local da chegada) e minha esposa e Sandra agora estavam no meu apoio.
Embora a paisagem seja muito bonita, corremos por longo tempo sem encontrar qualquer pessoa, e isto provoca um misto de preocupação e tranqüilidade. Nesta parte do trajeto o carro de apoio praticamente nos encontra apenas nas cidades e a próxima seria Crisólia (terra do ex-jogador de futebol Evair que se consagrou no Palmeiras).
Após descidas acentuadas chego na cidade juntamente com uma chuva fria que começou pouco antes a cair. Procuro pelo carro de apoio nas proximidades da igreja matriz e não o encontro. Percorro em vão algumas ruas para ver se encontro minha esposa e encontro um bar que entro para descansar e comer algo. Peço um misto quente, tomo um BCAA, uma Coca-Cola e tiro o tênis pra ver como estavam meus pés que já davam sinal de dor, por conta de bolhas que começavam a se formar, principalmente agora com o tênis molhado. Peço uma agulha para o dono do bar, que gentilmente me cede, e dreno as bolhas. Tento o celular da minha esposa, que certamente não atendeu, aguardo a chuva diminuir e sob uma garoa fina e a temperatura baixa sigo rumo a Ouro Fino, agora com um adicional de preocupação por não ter encontrado minha esposa. Neste momento tive uma baixa expressiva, e confesso que cheguei a pensar em parar.
Novamente no trajeto não encontro uma viva-alma e o silêncio era tal, que ouvia nitidamente meus passos, e é nestas horas de solidão que nossa determinação deve se mostrar. A cada sinal de cansaço e desânimo mentalizava todo treinamento que fiz para estar ali, as várias sessões de musculação na academia, e os muitos ‘longões’ de 50km e 60km de final de semana, fora as meias maratonas diárias de treino, e tudo isto me dava forças, pois sabia que não estava ali por acaso, e tinha condições de chegar até o final.
Quantas coisas não passam pela cabeça nestas horas, parece que tudo que já vivemos vem à tona, coisas boas e ruins, e aí neste aglomerado de emoções me vem uma alegria por estar ali, fazendo algo que gosto, e agradeço aos céus por isto.
A cada 10 minutos ingiro meus isotônicos, busco algo pra mastigar e tomo os preparados a cada hora intercalando dois Flex A e B.
Chego finalmente a Outro Fino e pra minha alegria lá estava minha esposa Raquel e a Sandra me esperando. Fiquei aliviado, mas continuava tenso pois mesmo com ritmo acelerado, fiz trechos a 7min/km, não encontrei ninguém da prova e sabia que ainda era o último. Pergunto o que houve na cidade anterior, e minha esposa diz que o carro atolou em certo trecho e tiveram que pedir ajuda para um morador do local que ajudou-as.
Mesmo sem fome, paro pra comer um lanche, pois nestas horas lembrava das orientações do nutricionista que sempre dizia que devemos comer e beber quando não estamos sentido esta necessidade, pois se estivermos sentindo pode ser tarde demais.
Tomo um Pedialite para evitar a desidratação, alongo as pernas, reabasteço a camelbak, e aproveito pra olhar as bolhas que aumentam. Minhas solas dos pés e laterais já estavam me incomodando muito, além das unhas, que em provas de Endurance sempre ‘substituo’, pois pelo menos umas 4 acabam caindo.
Após uns 20 minutos de parada, sigo em frente, agora rumo a Inconfidentes. Já havia concluído 105km e excetuando-se as bolhas, estava me sentido bem. É interessante que cada cidade fica mais ou menos a uma Meia maratona (21km) ou uma São Silvestre (15km) uma da outra, e pra quem se acostuma a fazer provas de longas distâncias, estas quilometragens passam a ser encaradas com muita naturalidade.
Novamente o trajeto é solitário com muitos aclives e declives, mas menos assustador que outras partes que já havia feito. Pra minha surpresa desta vez cruzo com dois cavaleiros que me cumprimentam e me desejam boa sorte. Meu estômago começa a me incomodar e sou obrigado a mais uma parada para ir ao banheiro (a Mata logicamente). Embora não esteja frisando, mas desde que me perdi na noite anterior agora sempre estou de olho nas tais setas amarelas pra não errar o caminho novamente.
Pra minha grata surpresa chego a Inconfidentes mais rápido do que imaginava e por pouco meu apoio não chega depois de mim. Há trechos da prova que o corredor percorre 20km e o apoio, que tem que ir por outro caminho, faz quase o triplo disto.
Paro pra almoçar, desta vez uma macarronada que em nada me lembrava a do Pico do Gavião, mas mesmo assim comi. Tiro o tênis e troco por outro e peço a minha esposa pra drenar as bolhas que já estavam pronunciadas, principalmente as que se formaram na planta dos pés, próximas do final dos dedos centrais. No total estava com 3 bolhas no pé esquerdo e 4 no direito, algumas acentuadas pelo calçado que havia molhado. Pego minha lanterna de cabeça e de mão, pois embora estivesse próximo das 06:00h no horário de verão, não sabia se iria chegar até a outra cidade ainda no claro.
Neste momento uma fina garoa começa a cair novamente, e quando saio sinto meus pés arderem, e retomo um trote mancando, o que me fez sentir o meu joelho esquerdo já operado, que vez ou outra se pronuncia. A próxima cidade agora seria Borda da Mata, e este foi o trajeto mais chato psicologicamente que fiz.
Já estava com 34horas envolvido na prova desde a largada, e o fato de ainda não ter conseguido alcançar ninguém, mesmo acelerado o ritmo durante todo o dia, me causou uma baixa emocional. Sabia que isto não poderia acontecer, pois tinha me preparado mentalmente pra este tipo de situação, mas mesmo assim por mais que tentasse, não conseguia levantar meu astral. Em provas de Ultra Endurance 90% do seu sucesso está relacionado a sua cabeça e os outros 10% a seu preparo físico. Lógico que se parte do pré-suposto que fisicamente você já se capacitou.
Consegui correr bem uns 17km deste trecho de quase 20km, e os 3km finais andei, e começaram a vir os pensamentos de como iria suportar mais uma noite chuvosa e com altimetrias muito fortes. Uma parte de mim já estava quase jogando a toalha, e outra insistia em continuar. Nesta confusão de emoções cheguei a Borda da Mata no começo da noite, e logo na entrada da cidade vi minha esposa. Sento na cadeira que minha esposa sempre preparava quando nos encontrávamos e cansando não sabia se iria continuar. Minha esposa me serve um lanche, isotônicos e BCAA e nisto ela me passa uma informação que o casal Jaqueline e Tom e a Monica Otero tinham saído a menos de 5 minutos. Nisto vejo 2 outros corredores que estavam descansando em um bar próximo e aí o desânimo deu lugar a uma alegria, pois havia conseguido alcançar outros corredores e já não me sentia sozinho. Minha esposa reforça esta injeção de ânimo com palavras animadoras dizendo que eu ia conseguir.
Recarrego minha camelbak com meus preparados eletrolíticos, coloco no bolso da minha camiseta de ciclismo 2 sanduíches, 1 maçã, frutas secas, sementes (nozes, amêndoas, castanha do Pará e uvas passas), e junto com o Pacer Fernando, que estava saindo ao encalço da Monica Otero sigo minha jornada.
Minha esposa e a minha comadre, cansadas por me auxiliarem o dia todo, tem meu aval para irem para Paraisópolis dormirem no Hotel que já havíamos reservado.
Eu sigo mata adentro conversando com Fernando, formado em Educação física, dono de uma assessoria em Poços de Caldos, e fisiologista na área esportiva, além de finisher da BR135 em 2008, que me deu dicas para concluir a prova.
A noite avança e a lanterna de cabeça e de mão, agora pouco iluminam e o cuidado redobrado para evitar um buraco, uma torção, e o final prematuro da prova.
O ritmo da Monica lento me faz abandoná-los e sigo á frente sozinho.
Em menos de 5 minutos estou sozinho e procuro sempre identificar as setas com ponto luminosos, para evitar de me perder, como havia ocorrido na noite anterior.
Aprofundo-me na mata e o tempo vai passando, e contento-me em conversar comigo, e me aconselhar a manter sempre o espírito otimista. De repente ilumino na cerca dois pontos que se aproximam de mim, e tenho dificuldade em identificar o que é. Os dois pontos vem ao meu encontro e quando posso identificar o que de fato é, estou diante de algo grande que tanto quanto eu se assusta. Era uma vaca, junto com outras que haviam se soltado do pasto e estava no meu caminho. Corro eu pra um lado, elas pra outro e assim consigo passar. Mais adiante, porém mais fácil de identificar, agora vejo corujas no chão, que parecem me indicar o caminho certo e me desejar boa sorte.
Uma fina neblina começa a se formar, pois nesta altura estava morro acima, o que me obriga a colocar um manguito pra tapear o frio. A neblina dificulta a visualização, e mal enxergo 2 metros á frente.
Paro pra pegar um maçã que como com muito prazer, e insisto em olhar em volta e ver se vejo alguma lanterna, pois estava querendo companhia naquele momento, pois a madrugada avançava e sentia falta de falar com alguém.
Corro mais alguns quilômetros e a neblina se dissipa e posso ver o céu em todo seu esplendor e com muitas estrelas, algo difícil de ocorrer na Capital de São Paulo.
Vários pensamentos vem á tona, penso em meus filhos, minha esposa maravilhosa que me apóia nestas loucuras e sempre está comigo, minha família, meus amigos próximos, e como em toda prova de Ultra distância que já fiz, sinto a presença do meu pai já falecido comigo, me dando forças e seguindo comigo de mãos dadas.
Fico feliz por vários sentimentos bons, e entendo que não estou sozinho, e muitos estão comigo, o que me dá uma força grande e começo a correr mais rápido.
Enxergo duas luzes à frente e desta vez não era o ET de Varginha, mas sim a Jaqueline e o americano Tom, que na noite anterior me deram o prazer de acompanhá-los até a Serra dos Lima.
Aperto o trote e alcanço-os e após a alegria recíproca de nos reencontramos, seguimos juntos noite á dentro, e após muitos morros chegamos a um vilarejo a 3km de Tocos de Mogi. Nesta altura estávamos com aproximadamente 154km de prova.
Procuro um banco pra sentar, e tiro meu tênis pra ver como estavam minhas bolhas que queimavam os pés. Em outro banco à minha frente deita-se o Tom que começa a ter calafrios e é coberto pela Jaqueline com um cobertor que levamos obrigatoriamente na mochila. Pra nossa surpresa chega em seguida um carro da organização que nos alerta pra apertarmos o ritmo ou correríamos o risco de não passarmos no checkpoint de Estiva a tempo. Descansamos ali uns 15 minutos e aproveitei pra novamente drenar minhas bolhas e colocar curativos, mas já sabia que iria conviver com este incômodo até a linha de chegada, caso eu conseguisse chegar. Como entre os presentes apenas eu falava inglês, o Luiz da organização me pediu para explicar ao Tom que pelos cálculos deveríamos fazer uma média de 6km por hora e foi aí que naquela tensão passei para o Tom a informação de que deveríamos fazer 6milhas por hora, visto que os americanos só entendem o raciocínio com milhas e não com km.
Tom ficou desesperado e começou a dizer coisas que eu não entendia, e finalmente disse que iria até o próximo posto e iria parar, pois não conseguiria desenvolver o cálculo que havíamos feito, pois também estava com bolhas e muitas dores nos pés.
Jaqueline, sua Pacer desde a largada, me perguntou o que Tom tinha dito e mencionei que ele disse que iria parar na próxima cidade e neste momento foi ela que ficou nervosa e repetia a ele com seu inglês de 1º. Grau como ela mesmo dizia: ‘No stop Tom’. Eu também conversei com ele e disse que ele era da marinha americana e seria um absurdo ele desistir, pois um dos pontos fortes de treinamento deles é a tolerância as situações difíceis.
Levantamos, tomamos nossos líquidos e fomos em frente, e desta vez a tensão aumentou. Tom tentou desenvolver uma velocidade maior, mas logo veio um morro simplesmente fantasmagórico e diminuímos drasticamente a velocidade. Comecei a refazer as contas que tinha feito e percebi que tinha passado para Tom uma informação errada. Comecei a gritar para Tom que tinha boas notícias, e passei a informação correta em milhas com pedidos de desculpas, e ele de imediato gritou de alegria. Outra notícia boa é que à partir de Tocos de Mogi o apoio poderia nos seguir lado a lado, e neste caso o casal de carro Antonio e Christina fizeram isto pelo resto da madrugada, parando a cada 1km e nos perguntando o que queríamos pra comer e beber. Realmente duas pessoas espetaculares e que nos ajudaram muito.
Ao chegar em Tocos de Mogi vemos outros carros de apoio isto me anima pois há vários outros corredores agora junto conosco.
Tom, mesmo após a euforia ao saber que nosso ritmo era mais tranqüilo, começa a diminuir o ritmo drasticamente, e o que me incomodava passa a incomodá-lo também, as famigeradas bolhas.
Pelo fato de manter o ritmo distancio-me deles e encontro á frente dois outros conhecidos: Alexei e seu Pacer. Vamos juntos por vários quilômetros e pra minha grata surpresa sou agora alcançado pelo Tom e Jaqueline que retornaram um ritmo forte.
Estávamos em plena madrugada, algo em torno de 03:00h, e de repente vemos mais um morro absolutamente íngreme e o passo mais lento castiga os pés e a coluna. Nosso foco estava claro, tínhamos que chegar em Estiva a tempo. Em Estiva haveria todo apoio da organização e local pra tomar banho, se alimentar e só não haveria tempo pra dormir. Jaqueline começa a sentir os primeiros sinais de sono, pois estava sem dormir a aproximadamente 40 horas e tira da mochila uma garrafa com café frio, que tomamos como se fosse um café da Starbuck. Tomamos ainda um RedBull e Jaqueline agora nos entretem com o relato de suas duas JungleMarathons, com histórias de onça e tudo o mais.
Antonio e Christina no carro de apoio sempre nos oferecendo algo pra comer e beber e em uma destas vezes paro pra me alongar usando o carro como apoio e pergunto em voz alta a mim mesmo, por que faço estas maluquices. Christina me olha fixamente e responde por mim: Porque você é diferente, porque você pode e porque você quer. Aquilo soou muito forte, e repeti silenciosamente isto pra mim muitas vezes durante a prova.
Realmente sou diferente de grande parte das pessoas, nem melhor, tampouco pior, apenas diferente, pois vejo um enorme prazer em testar meus limites e apreciar com isto toda beleza que a natureza nos oferece. Nos finais de treinos na Aldeia da Serra, mencionávamos entre nós corredores que nossa mensalidade do plano de saúde estava paga, tamanho nosso prazer por poder fazer aquilo. A liberdade de correr, sentir o vento pelo corpo, a chuva que vez ou outra sempre aparece em treinos e provas, e a benção de poder fazer o que muitos sequer pensam em se atrever por simples empecilho mental, é algo que realmente poucos tem o privilégio de sentir. Conheço muitas pessoas que correm até meia-maratona e tem vontade de fazer uma maratona mas tem medo de arriscar. Meu conselho é que tentem, pois se conseguirem , e 99,100% conseguem, a transformação boa que isto traz na vida é enorme, mesmo que a pessoa faça apenas uma vez esta ‘loucura’.
Após muitas subidas e descidas, no horizonte o céu começa a dar mostras de que o dia estava surgindo. Por volta de 06:00h chegamos finalmente em Estiva, e com certa folga em relação ao tempo limite. A primeira coisa que procuro é um banco pra sentar e pode tirar meu tênis e ver como estavam as bolhas dos dois pés. O que vi não me animou nada. A bolha do pé esquerdo próxima dos dedos centrais estava aumentando e mesmo drenando-a a dor continuava, ou melhor aumentava, visto que sua localização era na parte de apoio do pé. Minhas unhas também estavam indo, 4 como sempre.
Como frutas à disposição do atletas e tomo uma sopa que estava estavam servindo.
Tom não suporta também mais as dores nos pés e resolve trocar de meias e calçar um sandália Croc. Após uns 30 minutos de descanso, preparo-me para continuar a jornada e é neste momento que vejo meu amigo Aurélio Zancopé (vulgo Zanco, da equipe Branca Sports) que havia dormido ali e estava retomando a prova. Fiquei muito contente, e resolvi seguir com ele até a cidade de Consolação, aproximadamente 20km de Estiva. Zanco é um ultramaratonista experiente que inclusive já fez a temida e famosa ultramaratona Sul Africana Comrades, e havia sido o primeiro lugar na última 24h da virada esportiva de São Paulo.
Agora já claro rumamos para nossa penúltima cidade, e a esposa do Zanco e seu motorista foram no carro de apoio nos seguindo. O trajeto inicial foi tranqüilo comparado ao que já havíamos passado e a única coisa que me preocupava eram as dores na planta do pé devido as bolhas. Logo saindo da cidade, tenho uma surpresa maravilhosa, vejo o carro com minha esposa e Sandra, que haviam dormido em Paraisópolis e estavam agora ali pra me acompanharem até a chegada. Tínhamos 2 carros de apoio, quase um comboio, e fomos eu e Zanco animados, relembrando provas que fizemos juntos e tudo o que cada um tinha passado nestes já mais de 178km de prova.
O trajeto estava realmente nos animando, embora entendam o animar como subidas similares a do Matão, e nisto verifiquei a altimetria que levava comigo e percebemos que esta era a parte leve e muito ainda estava por vir.
Mais uns 5km de ‘moleza’ e aí veio pra mim o pior trajeto de toda prova, visto que estávamos cansados e com muito tempo de atividade ininterrupta. Eram subidas intermináveis e extremamente íngremes, algo que contrastava entre a beleza do local e a dificuldade do percurso. Confesso que nunca vi nada sequer parecido, mas fomos em frente tamanha era nossa determinação em atingir nosso objetivo. O corpo doía, mas a mente tinha claro nosso propósito. Começo a sofrer nas descidas pois a parte da frente dos pés usava para brecar o corpo, e justamente aí estavam minhas bolhas doloridas. Brigava comigo para tentar esquecer a dor, mas era tão forte que resolvi incorporá-la e aceitar que seria assim até o final. Ultrapassamos um Argentino e após uma descida que o mais certo seria descermos de corda, chegamos em Consolação.
Minha esposa e Lucila, esposa de Zanco, já haviam encontrado um local pra almoçarmos, e eu já enjoado de tanto carboidrato e géis (já havia consumido 14), queria mesmo um pouco de proteína, e contrariando o nutricionista resolvi comer um prato de arroz, feijão, bife, salada e batata cozida, saboreando uma deliciosa Coca-Cola que em Ultras é indispensável e recomendada, porém no dia-a-dia deve ser evitada. Foi um verdadeiro banquete. Zanco resolveu ser mais tradicional e consumiu massa. Após o almoço fomos para a pracinha ao lado e minha esposa foi fazer curativos nas minhas famosas bolhas. Nesta altura já estava mancando e excetuando-se o prazer do almoço, as dores nas bolhas dos pés estavam muito fortes. Ah, depois vim saber que antes de provas deste tipo é aconselhável lambuzar os pés com vaselina sólida ou hipogloss, para justamente evitar estas bolhas, mas infelizmente agora era tarde.
Após uns 40 minutos parados já estamos prontos para a parte final. Estávamos com 196km de prova e faltava apenas uma meia-maratona, mas detalhe ainda com subidas e descidas muito fortes. Tiramos algumas fotos, eu, Zanco e Alexei que também parou pra se alimentar e seguimos agora 3km de asfalto para então entrarmos novamente em piso de terra.
Estes 3km foram absolutamente terríveis pra mim, pois fomos praticamente andando Zanco e eu, enquanto Alexei resolveu forçar com uma corrida moderada. O calor do asfalto parecia entrar na minha pele pelos pés, e já não conseguia mais encontrar um mínimo de conforto nas pisadas. Um trecho íngreme logo ao sair da cidade me fez forçar muito os dedos pra frente e isto fez a pele raspar mais a região afetada. A dor era quase insuportável, isto sem contar com as unhas que estavam se soltando.
Estava decidido a terminar e me concentrei no intuito de me convencer que quem estava no controle era sempre eu, e jamais as dores. Deixei claro pra mim que por mais fortes que estas dores fossem, de forma alguma superariam minha determinação em conseguir meu objetivo. Novamente vinham à mente meus muitos treinos pra me capacitar para estar ali. As noites que chegava em casa, estudava com meus filhos e depois ia treinar. As madrugadas, onde acordava 05:00h pra treinar e depois ir trabalhar. As aulas de musculação e natação e principalmente todo preparo mental que havia me submetido para contornar qualquer adversidade.
Nestes pensamentos consigo terminar a dura parte de asfalto, e na entrada da trilha vejo novamente minha esposa e Sandra que me desejam boa sorte e repetem que faltava muito pouco, e que durante uns 10km não iríamos mais nos ver, visto que os carros de apoio não conseguiriam nos seguir. Pelo trajeto estas 10km significavam aproximadamente 2horas, e agora com 18km restantes vamos trilha adentro.
Logo ao começar a trilha, aclives, o que nesta altura pra mim era menos sacrificante dada as dores nos pés, que ao subir me exigiam menos.
Zanco com sua maneira particular de subir, sempre parava no meio de uma subida pra respirar e olhar pra trás para apreciar a paisagem. Eu preferia não parar e subir o mais rápido possível e ver a paisagem do topo. Quase sempre estávamos lado-a-lado pois embora ele parasse um pouco, seu ritmo mais forte me alcançava e seguíamos juntos.
Após passarmos uma ponte construída sobre um riacho devido às chuvas ultrapassamos novamente Tom e Jaqueline que haviam nos ultrapassado na cidade de Consolação.
Meus pés estavam agonizantes e pedindo pra eu diminuir o ritmo, mas eu estava no controle e forçava-os a continuar. Percebo que um ritmo um pouco mais forte me faz sentir menos o impacto com o piso e sigo mais rápido o que me faz deixar Zanco para trás. Incrivelmente começo a correr como se estivesse começando a corrida naquele momento, nem eu conseguia acreditar.
Após uma longa curva encontro o amigo Rosivaldo com sua esposa Sõnia e todo sua equipe de apoio. Ele já havia concluído a prova em 37h34min e estava ali para nos incentivar. Parei para falar com eles, que me ofereceram um deliciosa e gelada água de coco e me alertaram que os próximos quilômetros seriam difíceis pois além de várias subidas íngremes, certas partes estariam com muito barro e difícil de passar.
Faltavam aproximadamente 10km e embora em um longão dos muitos que fiz, isto já preconizasse um final de treino bem próximo, ali a história era absolutamente outra.
Após beber a água de coco retomo meu ritmo e deparo-me com uma subida de fazer inveja as outras tantas da prova. É inacreditável como esta prova não dá refresco nunca, e podem ter certeza, não estou valorizando, estou tentando ser o mais imparcial possível.
Passo com dificuldades as partes de lama, sujo o tênis, sinto as bolhas, mas sigo em frente com a mesma determinação de quando comecei há mais de 50 horas atrás.
Subo morros, desço morros, alongo as pernas, bebo isotônicos, tomo gel, e finalmente após uma outra longa subida, no topo encontro com minha esposa.
Ela me anima e diz que agora faltam menos de 5km, e que o carro conseguiria me seguir até a chegada.
Uma fina garoa começa a cair e isto me refresca e me faz começar a pensar em tudo que passei na prova, e que seria impossível não conseguir chegar.
Minha esposa pede pra eu não correr mais, pois achava que assim minhas bolhas doeriam menos, e também porque não entendia como eu poderia estar aumentando o ritmo após tantas horas de atividade. Soube depois que a preocupação dela tinha algo a ver com uma história de um corredor que no ano anterior quase perdeu um rim por forçar o ritmo, e por não conseguir urinar, o que quase culminou com uma falência do órgão.
Avisto do alto a cidade de Paraisópolis e vejo que estou bem perto.
As dores parecem diminuir pois uma arrepio começa a subir pelo corpo, pois já vislumbro a linha de chegada e a festa que iria fazer.
Corro também nas descidas e entro na cidade. Não estava acreditando. Aqueles que correm sabem bem que emoção é esta que vem neste momento.
O pessoal da corrida me indica o caminho a seguir e aumento ainda mais o ritmo. Minha esposa e minha comadre Sandra fazem outro trajeto de carro para chegarem antes, e registrarem esta chegada histórica pra mim.
Avisto o pórtico, faltam agora menos de 300m, dá pra acreditar?
Quando estou a menos de 100m da linha vem ao meu encontro Mário Lacerda, organizador da prova, me dá um beijo e me abraça, e um fato pitoresco ocorre.
A chegada é na praça da igreja Matriz, e naquele exato momento estava entrando na igreja muitas pessoas para celebrar uma missa em homenagem a uma pessoa eu havia morrido.
Mário me pede pra aguardar um pouco até que todos entrem na igreja, o que leva pouco mais de 5 minutos.
Sinal liberado, corro para a linha de chegada e concluo a prova entre os 48 solos que conseguiram completar.
Recebo abraços de muitos amigos, inclusive de Tomiko, que estavam ali e o beijo carinhoso de minha esposa.
EU CONSEGUI!!! 222KM no total em aproximadamente 56horas.
Consegui descrever detalhes da prova, mas jamais conseguiria descrever a maravilhosa sensação que sentimos ao terminar desafios como este.
Como em todo final de relato faço questão de frisar alguns agradecimentos e desta vez seriam muitos, proporcionais a distância da prova, porém vou agradecer a todos que me apoiaram de forma genérica. Certamente estes lerão este texto e sabem quem são. Agradeço a minha querida comadre Sandra, que deixou sua família para estar conosco, e minha maravilhosa esposa, sempre comigo nestas aventuras, que segundo vários amigos não tem um lugarzinho no céu, tem sim um resort.
Aproveito também pra deixar aqui um convite. Ano que vem sou eu que precisarei de um Pacer, ou melhor vários Pacers, e quem quiser pode se candidatar.
Até a próxima aventura.


©2012 ECTAVARES - Tel: 11 3231-2080/3159-8456/7722-0811 - Design Ciclo Graphics