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MARATONA DE BARCELONA: MUITO ÂNIMO PARA CORRER 42 KM
19/03/2010

Por Marcelo Jacoto

A Maratona de Barcelona (ainda) não é uma das mais badaladas do mundo. Ainda, porque esta corrida espanhola tem potencial de sobra para se tornar uma das provas de longa distância mais desejadas do planeta. A começar pelo site oficial, que é extremamente rico em informações: ao visitar o endereço http://www.maratobarcelona.es/, o atleta tem acesso ao percurso completo de forma interativa (quilômetro a quilômetro sob a ótica do corredor ou do espectador), listagem de todas as ruas e avenidas que fazem parte da maratona, informações sobre os pontos turísticos que estão no percurso, indicação e localização dos grupos musicais distribuídos ao longo da prova, planos de treinamento para o ritmo desejado, dicas de hidratação e nutrição para antes e depois da competição, informações turísticas completas sobre a cidade (todos os meios de transporte, clima, hotéis, serviços, principais bairros e suas atrações), informação da temperatura em tempo real, dados sobre a corrida do café da manhã, feira da maratona e jantar de massas, sala de imprensa etc.
Enfim, a ótima primeira impressão deixada pelo site oficial (que costuma ser um espelho da organização da prova), a verificação de que o percurso da maratona passa pelas principais avenidas e pontos turísticos da cidade (um verdadeiro city tour, nos mesmos moldes daqueles ônibus turísticos) e a vontade de conhecer uma cidade que encantou o mundo ao sediar os Jogos Olímpicos de 1.992 me fizeram decidir pela inscrição na Maratona de Barcelona. Dias antes do embarque para a Espanha, verifiquei no site que mais 16 brasileiros estariam alinhados na largada do dia 07 de março de 2.010, integrando um total de 12 mil corredores inscritos. Minha preparação foi bem aquém do que eu esperava: não consegui trabalhar o ritmo almejado em nenhum dos longos realizados entre janeiro e fevereiro devido ao forte calor, a uma parada durante o Carnaval e a uma tosse alérgica adquirida 20 dias antes da viagem. Viajei tranqüilo e conformado apenas em terminar a prova, passear e conhecer a cidade espanhola.
No meu segundo dia em Barcelona, rumei para o bairro de Montjuic para retirar o kit da corrida. A entrega dos dorsales (números de peito) ocorreu no sexto pavilhão de exposições da Plaza Marqués de Foronda (antigo Palácio de Afonso XIII e de Vitoria Eugenia), próxima à Avenida Reina Maria Cristina, local da largada e chegada da Maratona. A organização optou por concentrar a feira, a corrida do café da manhã, o jantar de massas e a largada dos 42 km no mesmo local, que tinha acesso fácil por meio da estação de metrô Plaza de Espanya.
Eu e mais um colega brasileiro (Marcelo Lisboa) fomos à feira da maratona no primeiro dia, pois tínhamos a intenção de também retirar um dos 1.000 números de peito da corrida do café da manhã disponíveis ao público. A entrada até a feira foi tranqüila em função das inúmeras placas indicativas espalhadas pelas ruas próximas. Junto ao espaço da entrega dos kits havia uma retrospectiva fotográfica da história da prova e painéis para fotografias de recordação.
A feira foi de médio porte, compatível com a dimensão da maratona, comportando alguns estandes de roupas e acessórios, suplementos, revistas e de divulgação de outras maratonas européias (Paris, Berlim, Praga, Madri, Helsinque, Amsterdã, Veneza, Florença, Frankfurt, Porto, Viena, dentre outras). A entrega dos números de peito da corrida do café da manhã foi bem tranqüila, sendo que recebemos uma camiseta azul dry fit junto com o dorsal no kit da maratona.
A grande decepção foi a ausência de marcas tradicionais (Adidas, Asics, Nike, New Balance) e o limitado estande da Mizuno (que foi a empresa oficial de material esportiva da prova), que vendia apenas camisetas, shorts e pochete com o nome da maratona. Não localizei nem mesmo bonés, pôsteres, canecas, agasalhos e ursinhos de pelúcia, souvenires tão tradicionais em feiras de maratonas internacionais. Além disso, a Mizuno optou por não comercializar tênis e promoveu um concurso que contemplava o ganhador com uma viagem para correr as 10 Milhas do Rio de Janeiro! O ponto mais positivo foi conhecer Arcadi Alibés, um corredor local que estava lançando o livro “Correr para ser Feliz” (integralmente escrito em catalão, idioma presente em todas as placas de ruas e avenidas de Barcelona), que reune em textos e fotos as suas experiências em 99 maratonas espalhadas pelo mundo, além de marcas pessoais, dicas de treinamento e impressões sobre o prazer de se aliar a corrida às viagens turísticas. Ao adquirir o livro e conversar com Arcadi (que completaria sua 100ª maratona justamente na edição 2010 de Barcelona), perguntei a ele quando viria correr no Brasil, ao que me respondeu que já tinha planos para participar da Maratona do Rio de Janeiro em função da eleição da cidade como sede dos Jogos Olímpicos de 2.016, sendo que o jornalista-corredor já correu em quase todas as cidades que sediaram as olimpíadas, faltando apenas Los Angeles e Rio em seu currículo.
Retornei à Plaza Marqués de Foronda (onde fica localizada a famosa “Font Mágica” da cidade) na manhã de sábado para participar da corrida festiva do café da manhã. Pouco mais de 200 corredores se animaram a enfrentar o frio e percorrer as subidas do belo bairro de Montjuic. Os 4195 metros do percurso (que foram, na prática, pouco mais de 3,5 km) relembram os últimos quilômetros da histórica maratona dos jogos olímpicos de 1992, passando ao lado do Poble Espanyol e em frente ao Instituto Nacional de Educação Física da Catalunha e da torre da Telefônica, e finalizando em frente ao estádio olímpico Lluis Companys. Não finalizamos dentro do estádio porque estão sendo feitas reformas em seu interior para o Campeonato Europeu de Atletismo. A animação antes da largada ficou por conta de um grupo local de jovens, que tocou sua bateria sem o gingado brasileiro. Havia grupos de holandeses, suíços e animados poloneses. Eu, Marcelo Lisboa e Rodrigo Damasceno (um carioca integrante do Marathon Maniacs, que iniciou em Barcelona uma sequência de 9 maratonas pela Europa no curto espaço de 2 meses) fomos os encarregados de representar o Brasil ao longo do trote festivo, com muitas paradas para fotos e confraternizações. O café da manhã ocorreu em frente à entrada da feira, com farta distribuição de água, achocolatado, pães, frutas e doces.
Aproveitando a visita ao bairro olímpico e o tempo de espera para o início do “Pasta Party” na feira da maratona, eu e meu colega Marcelo Lisboa visitamos o estádio olímpico dos jogos de 1.992 e o Museu Olímpico (que possui um acervo completo sobre a história das olimpíadas e todas as modalidades esportivas, além de inúmeras miniaturas do simpático Cobi, o mascote daquela edição dos jogos), além de outros pontos turísticos, como a Fundação Joan Miró, os jardins de Laribal, Poble Espanhol, CaixaForum e Museu Nacional de Arte da Catalunha (Palácio Nacional). A pequena fila do “almoço” de massas (começou ao meio dia do sábado) fluiu rapidamente e houve a oferta de dois tipos de penne, água e refrigerante, tudo à vontade, para os corredores e seus acompanhantes.
Por fim, o grande dia chegou e a temperatura estava ideal (na casa dos 10 a 12° C) na manhã do dia 07 de março de 2.010. O clima colaborou bastante, haja vista que no dia seguinte a neve tomaria de assalto a cidade de Barcelona. A concentração dos corredores pelas estações de metrô era grande e todos se dirigiam à Plaza de Espanya para iniciar a jornada pelos 42.195 metros. O guarda volumes foi montado dentro do mesmo pavilhão da feira da corrida, cujos estandes já haviam sido desmontados. Os jatos de água da “Fonte Mágica” estavam fluindo como se estivessem dando boas vindas aos maratonistas. Mais uma vez havia placas de informações sobre todos os serviços da maratona, todas muito bem distribuídas pela Avenida Reina Maria Cristina, local da largada e chegada da Maratona.
A largada foi realizada com apenas dois minutos de atraso, entre as admiráveis torres venezianas construídas para a Exposição Internacional de 1.929, com uma bela chuva de fitas amarelas e azuis. Havia uma boa concentração de pessoas prestigiando os corredores, o que também ocorreria durante todo o percurso. Os atletas iniciaram a jornada pela Praça de Espanha e a dispersão se deu de forma bem tranqüila. Os primeiros trechos são de leve subida e a primeira atração turística é o imponente Camp Nou, estádio do todo-poderoso Barcelona, o time de futebol que é o atual campeão mundial de clubes, e que tem jogadores consagrados em sua história, como Cruyff, Maradona, Romário, Stoichkov, Laudrup, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Eto’o, Messi, Thierry Henry, Ibramovich, Xavi, Niesta, Puyol etc., na altura do terceiro e do sexto quilômetros, com extensas e leves descidas na Avenida Diagonal e na Travessa de lês Corts. Exatamente nos 4 km e 195 metros, logo após passarmos em frente a uma das inúmeras e tradicionais lojas El Corte Inglês (a loja de departamentos mais famosa da Espanha) havia uma placa que registrava que 10% da maratona já havia sido percorrida. Muito animador! Na altura do oitavo km, protagonizei uma cena engraçada: ao passar com a bandeira do Brasil, despertei a ira de uma criança holandesa que estava com um grupo, e que passou a me seguir por alguns metros gritando impropérios (em holandês, é claro), certamente em razão da fama futebolística brasileira. Por falar em futebol, avistei um colega no 9º km com a camisa da Seleção, sendo que Jesus (o nome do atleta) era espanhol e me disse que sempre corre com a amarelinha por que ela lhe dá sorte. Na marca dos 10 kms, recebemos a energia de uma banda de percussão, um dos 12 grupos espalhados pelo percurso com a função de animar os atletas. No 11° quilômetro ainda foi possível conversar com um simpático casal de portugueses, e receber a força da torcida de italianas que estavam assistindo à corrida na calle Tarragona. Meu ritmo surpreendentemente estava constante (5 minutos e 30 segundos por km) e começava a vislumbrar concluir a maratona abaixo de 4 horas, caso não surgisse algum imprevisto pelo caminho. Passei a seguir os gritos de “animó” e “venga”. Os postos de hidratação (com água, isotônico, esponjas e frutas) estavam fartos e bem distribuídos ao longo do percurso.
Os corredores retornaram à Praça de Espanha no 12° quilômetro, passaram em frente à praça da Universidade (14° km) e, após uma leve subida, seguiram pelo Passeig de Grácia, uma das principais vias da cidade, e onde estão localizadas duas das principais obras de Antoni Gaudí, as casas Battló e Millá (La Pedrera) para, logo após, vislumbrar outra famosa obra de Gaudí, a ainda inacabada e bela igreja da Sagrada Família, já no 16° quilômetro. Uma faixa no 17° km saudava o corredor-escritor Arcadi Alibés por sua 100ª maratona. Perto da marca da meia maratona (a partir do 18° km) surgiu a primeira difícil passagem do percurso: a Avenida Meridiana, que abrange mais de 3 kms da prova em sistema de ida-e-volta, lembrando a interminável reta do Aterro do Flamengo da meia do Rio de Janeiro, cuja curva de retorno provoca ansiedade e impaciência em qualquer atleta. Eu concluí a meia maratona com um pace regular e constante (menos de 1 hora e 58 minutos), o que mantinha minha ponta de esperança de finalizar junto com o grupo do sub 4.
As pequenas e quase imperceptíveis subidas continuaram a surgir pelo percurso na sequência: desta vez, havia a ponte de Calatrava no 22° quilômetro. A maratona ganhava as ruas e avenidas do extremo noroeste da cidade e mais uma longa avenida no sistema ida-e-volta (a Diagonal) se apresentou no percurso (entre o 25° e o 30° km), sendo que o retorno foi feito em frente à Torre Agbar, um prédio da companhia de abastecimento e uma das torres mais emblemáticas de Barcelona. Meu ritmo continua constante e atingi os 30 quilômetros com 2 horas, 47 minutos e 19 segundos. Realmente o “ánimo” gritado pelo público e os pontos turísticos espalhados ao longo de toda a prova contagiavam. Se eu conseguisse administrar minha passada até o final, poderia quebrar meu recorde pessoal!
A parte final da maratona foi um colírio para os olhos de todos os atletas: após passar pela torres Mapfre, percorremos o litoral da cidade, os portos, as praias e calçadões de Barceloneta em um percurso completamente plano. Na altura do 35° km, contornamos o “Parc de La Ciutadella” e passamos por baixo do majestoso Arco do Triunfo, para, logo após, ganharmos a Praça de Catalunha, outro cartão postal da cidade. Os quilômetros ainda adentraram o bairro gótico (com direito a passar em frente à catedral da cidade e aos palácios do governo de Barcelona e da Catalunha), passaram por “La Rambla” (a principal via de pedestres do centro, um local muito movimentado e onde eu fiquei hospedado) até circular a estátua de Colombo no 39° km, na praça Portal de La Pau. Eu havia percorrido a marca dos 40 quilômetros em 3 horas, 45 minutos e 6 segundos e tinha tudo para fechar abaixo de 3 horas e 57 minutos, meu recorde pessoal em Berlim/08. No entanto, os três quilômetros finais pela calle Sepúlveda e a avenida Paral.Lel eram todos em subida, tornando muito sacrificantes os instantes finais da prova. Já no 41° quilômetro havia caixas de som e o locutor anunciava que a “glória estava próxima”, o que me fez acreditar que Barcelona realmente sabe incentivar e injetar ânimo em seus maratonistas.
Com uma diferença de 400 metros a mais em meu GPS, avistei a Praça de Espanha no 42° km. Agora era abrir os braços e dar um sprint final na Avenida reina Maria Cristina. Sem qualquer expectativa ou cobrança pessoal, eu conseguia quebrar mais um recorde, concluindo a Maratona de Barcelona em 3 horas, 54 minutos e 3 segundos. Até mesmo o recorde da prova foi quebrado, desta vez com o queniano Jackson Kotut, que finalizou com a fantástica marca de 2 horas, 07 minutos e 30 segundos. No feminino, a compatriota Debele Wudnesh Nega se consagrou com 2 horas, 31 minutos e 50 segundos. A entrega das medalhas e do lanche pós-prova foi tranqüila e bem organizada. Encontrei o colega Marcelo Lisboa no guarda-volumes e comemoramos nossos resultados com muita festa e fotos, e com a certeza de que a Maratona de Barcelona é uma excelente opção para quebra de recordes pessoais em função do percurso inspirador e do ânimo contagiante da torcida catalã, não obstante as subidas discretas que integram o percurso. Se você pretende fazer parte desta festa no ano que vem, anote a data de 06 de março de 2.011 em sua agenda e treine com muito “ánimo” até o grande dia!




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