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Minha Primeira Maratona, no Mundo da Magia: Walt Disney World
19/02/2010

Por Karine Parussolo

No dia 6 de janeiro de 2010, umas 23h30min, embarquei no vôo 0230 da American Airlines com destino a Miami, onde faria conexão para Orlando, Flórida. Parada final: Walt Disney World. Além de ser minha primeira viagem internacional, o objetivo era pouco peculiar: faria minha primeira maratona e, ainda por cima, o Desafio do Pateta (que é correr a Meia Maratona no sábado e a Maratona no domingo). Além disso, faria a Family Run, de 5 km, na sexta-feira.
Os dias que antecederam o embarque foram de ansiedade, principalmente pelo desafio ao qual me propunha. Tinha certeza de que seria capaz de conseguir, mesmo sendo estreante na distância de 42,2 km, porém, não tinha noção do estado em que iria concluí-lo (se andando, correndo, me arrastando...). Além disso, vinha de um ano de 2009 repleto de intempéries: fiquei parada três meses devido a uma fratura no pé direito em janeiro, ocasionada por um acidente; depois, em agosto, passei por uma operação de emergência devido a uma apendicite; e, finalmente, em setembro, depois da Maratona de Revezamento Pão de Açúcar, precisei me afastar dos treinos por dois meses devido uma tendinobursite no quadril direito e uma tendinite no pé esquerdo, ambos tratados à base de fisioterapia, alongamentos e musculação. Consegui liberação do meu médico faltando apenas um mês para a viagem, “desde que fizesse treinos leves”. Então, em dezembro, sob orientação do professor Tavares e entre as festas de Natal e Ano Novo, fiz rodagens de 10-12 km, participando das corridas Sargento Gonzaguinha e a São Silvestre, de 15 km, que foram meus “longões”. Em vista disso, meus objetivos para o Desafio passaram a ser terminar (de preferência, correndo) e, depois, pendurar orgulhosamente as três medalhas no peito!
Chegamos ao hotel, na Disney, no final da tarde do dia 7, fizemos o check-in e logo saímos para buscar os kits, cuja entrega era até as 20h. O hotel disponibilizava ônibus gratuitos a cada 15-20 minutos, que nos levava até o local, um complexo esportivo enorme. Fiquei impressionada com a organização e com o fato de todos os atendentes serem voluntários muito simpáticos e atenciosos. Rapidamente retirei o que precisava e retornei ao hotel, onde fiz uma refeição leve e procurei descansar antes da primeira prova da Disney Marathon Weekend, os 5 km, cuja largada seria às 07h00min da manhã.
Quando saí do hotel ainda estava escuro e fazia frio. Pegamos o ônibus, o qual nos deixou no ponto de concentração da prova. A largada e a chegada eram nas proximidades do Epcot Center, um dos parques da Disney. O tema da corrida era a animação “Up! Altas Aventuras”, que havia assistido recentemente e adorado e, claro, aproveitei para tirar fotos com os personagens. A largada foi no horário previsto, já amanhecendo. O horizonte tingia-se de tons rosados e alaranjados, belíssimo. O clima era festivo, com muitas famílias, pessoas de todas as idades, caminhando, correndo, empurrando carrinhos de bebê. Aproveitei esse clima e fiz a prova trotando e parava freqüentemente para tirar fotos. Percebi que grande parte dos “corredores” fazia o mesmo. Foi bom porque não tinha intenção de forçar, pois teria 39 milhas para percorrer nos próximos dois dias. Completei a prova em 56 minutos.
Depois de um banho e um lanche, fui com alguns amigos para a feira da maratona, que não tínhamos conseguido visitar no dia anterior. Precisava comprar várias coisas, como equipamentos de corrida adequados para o frio (não poderia correr o risco de uma hipotermia ou algo parecido). A feira era imensa, maior que qualquer uma que tenha visto no Brasil, repleta de gente, expositores, produtos e novidades. Havia tanta coisa legal que acabei ficando ali mais de quatro horas, sem almoçar. Após, voltei para o hotel, onde passeei um pouco, depois jantei com o pessoal e fui dormir.
Quando parecia que eu havia acabado de adormecer, às 3h00 da manhã, tocaram vários despertadores ao mesmo tempo: o digital, ao lado da cama, o do celular da Francisca e o da Lourdes, minhas colegas de quarto (ninguém queria correr o risco de perder a hora!) e levantamos todas para nos preparar para a Meia Maratona. A previsão era de muito mais frio que no dia anterior, então precisava agasalhar-me bem e tomar um café reforçado. Na porta do hotel, a fila era grande para pegar os ônibus e todos se encolhiam devido ao frio, o que ficava mais evidente quando chegamos ao local da prova, pois a temperatura estava em -4oC. Antes de ir para a largada, a cerca de um quilômetro dali, guardei meu blusão no guarda-volumes e fui uma última vez ao banheiro. Quando cheguei ao local, a primeira das largadas, que eram em ondas, já havia sido dada. A minha seria a seguinte, a do curral B. Quando deram a nova largada, houve fogos e festa e parti para o desafio no meio da escuridão, pelas estradas que interligavam os parques.
A prova foi muito boa e, assim como a de sexta-feira, superorganizada. Havia atenção especial para os atletas, com postos de hidratação e isotônico a cada milha, muitos banheiros químicos (limpos!), voluntários e torcida, gritando e incentivando os participantes. A festa era ainda maior na entrada dos parques. Era impressionante ver tanta gente assistindo e torcendo àquela hora, ainda escuro e com tanto frio, inclusive com crianças de colo. O primeiro parque pelo qual passamos foi o Epcot Center e, saindo de lá, peguei uma longa estrada até o próximo, o Magic Kingdom. Quando o alcancei, o frio já havia piorado e garoava; a sensação térmica beirava os -10oC. No entanto, logo que adentrei a via principal do parque e dei de cara com o Castelo Encantado, minha emoção foi tão grande que até me esqueci do frio e do cansaço. A visão era espetacular: ele era enorme, lindo, resplandecente, a rua estava decorada por causa Natal e lotada de gente de ambos os lados, gritando e torcendo. Sentia lágrimas no meu rosto e lembrei-me do meu amigo Silva, da equipe VO2, que havia participado no ano anterior e me contado que esse momento era realmente especial. No entanto, nenhuma história descrevia aquele sentimento completamente: era mágico. Atravessei o castelo e, após algumas voltas no parque, peguei a estrada novamente. Com o dia amanhecendo, a garoa continuava e o frio apertava.
A certa altura, começaram a cair do céu flocos de gelo; dava para sentir cristaizinhos batendo no meu rosto. Falaram-me que era neve. Não duvido, pois a sensação térmica já estava em -12 oC e eu nem sentia os meus pés direito, frios e úmidos, e meu rosto ardia com o vento gelado. Depois da metade da prova encontrei a Adesilde, também da Equipe Tavares, que parecia ter problemas com o frio, pois tremia. Ela não havia se agasalhado adequadamente para a prova, vestia apenas calção e regata – até os corredores locais estavam empacotados... Aproximei-me e ela comentou que não estava sentido as mãos, que não agüentava mais de frio, mas pediu que eu seguisse. Desejei-lhe melhoras, dei a volta e continuei. Pouco depois, retornei e ofereci-lhe minha luva (já havia perdido uma na largada e, àquela altura, fazia mais falta para ela que para mim). Não resolveria o seu problema, mas pelo menos ajudava um pouco (felizmente, apesar do sofrimento, ela acabou conseguindo concluir a prova). Quando avistei o Epcot, percebi que o final estava próximo: a milha 13,1 era lá dentro. Ao cruzá-la, havia animação e festa, intensificada pelo pessoal que lotava as arquibancadas ao lado. Fiquei feliz por ter fechado a primeira parte do desafio com o tempo de 2h19min, com direito a foto com a Minnie antes de cruzar a linha de chegada. Caminhei mais um pouco para ganhar minha medalha. Elas eram colocadas no pescoço de cada um, o que era um carinho com os atletas. Cobri-me com a manta térmica entregue em seguida e fui para a fila dos lanches.
Naquele momento, passei sentir frio DE VERDADE: o calor do corpo foi se dissipando e, com o vento gelado batendo, comecei a, literalmente, bater os queixos, encolhendo-me sob a manta. Meu rosto queimava e a fila do lanche parecia tão longa! Quando finalmente chegou minha vez, senti alívio, pois o lugar era fechado e o lanche, bem servido, com frutas, muffins, isotônico, Coca-Cola, doces, etc. Em seguida, segui para outra fila, a do guarda-volumes, onde precisei de uns 45 minutos para reaver minha sacola e, após, segui para a etapa mais árdua: pegar o ônibus para o hotel. Existia uma área destinada ao embarque dos atletas, com pontos separados por destino. O meu era um dos All Star Resorts, que tinha simplesmente a maior fila. Fiquei mais de uma hora, ao ar livre, no frio, com o corpo tremendo e sem sentir os pés, até chegar o meu ônibus. Quando entrei, a sensação era de alívio, pois o interior era quentinho. Ao chegar ao hotel, corri para a banheira. Afinal, meu corpo merecia descansar – pelo menos um pouco. Depois encontrei meus amigos, almoçamos e fomos passear no Epcot Center, cujas atrações desejava conhecer devidamente, já que havia passado por lá apenas correndo.
Na véspera da Maratona, o Grande Dia, foi mais difícil dormir que na noite anterior, pois estava ansiosíssima. Afinal, era a minha primeira e, da turma do meu apartamento, eu era a única que iria fazê-la e não podia perder a hora. Eu não me lembro se o despertador tocou no horário que programara, 03h30min, mas houve um momento em que, subitamente, pulei da cama, desesperada, com a sensação de que havia desligado o despertador, virado para o lado e dormido por horas. Quando olhei pela janela e vi uma luz forte vinda de fora e que o radiorrelógio do quarto marcava 08h30min, meu coração foi à boca e quase tive um ataque. Andei para um lado e para o outro, sem saber o que fazer, pensando “Perdi a corrida! Não pode ser, isso não está acontecendo!”, aterrorizada. Alguns segundos depois, resolvi olhar pela janela, para ver como estava lá fora, se havia movimento ou algo parecido. Foi quando percebi que a forte luz vinha dos refletores da parte externa do prédio, que iluminavam os blocos de apartamentos. Intrigada, conferi meu relógio de pulso e ele marcava 03h31min. Suspiro de alívio: havia acordado exatamente no horário!Não havia perdido O Grande Dia, ainda estava no páreo!
Ainda tensa, preparei-me, colocando as roupas que havia deixado separadas na noite anterior, mais reforçadas para o frio, finalizando com a camiseta da Seleção Brasileira de Futebol, trazida especialmente para a ocasião, e um chapelão do Pateta, o homenageado, e que também serviria para ajudar a me aquecer. Finalizei com um agasalho de descarte, comprado na feira para a Meia e a Maratona, pois não queria me desfazer dos meus próprios agasalhos (na Meia funcionaram muito bem). Achei super útil e de fato fazia um bom isolamento, era leve e, no caso das calças, tinham picotes em cada lateral para facilitar na hora de tirá-las. Fiz o desjejum e fui para a fila do ônibus. Dessa vez havia preferido chegar mais em cima da hora, expondo-me menos ao frio.
Assim como na meia, a largada foi em ondas e, a cada uma, havia fogos e muita festa. Quando saí, umas 05h50min, ainda estava escuro. O percurso da primeira metade era diferente do da meia, mas passava também pelo Epcot e pelo Magic Kingdom. Porém, quando passamos por este, já era dia, o que dava um efeito diferente no Castelo. Embora houvesse sol e céu aberto, o frio não diminuía. Estava abaixo de zero e até os copos de água que recebíamos nos postos de apoio, presentes a cada milha, continham pedaços de gelo, chegando a formar uma camada na sua superfície, e acontecia o mesmo com os isotônicos. O chão ao lado dos postos de água ficava escorregadio, pois o líquido que caía formava uma camada de gelo, parecendo uma pista de patinação, e eu passava deslizando, devagar. Quando cheguei à metade da prova, era como se o Desafio houvesse começado de verdade: pela primeira vez encarava mais de 21,1 km em uma corrida. Ia navegar por mares desconhecidos e pensava: “Vai com calma que você consegue!”. E assim ia, toda hora incentivando-me a manter o ritmo e a curtir, sem pensar no cronômetro e nas milhas que faltava percorrer. Celebrava cada uma que conquistava. No entanto, a certa altura comecei a sentir fortes dores no pé esquerdo, onde tinha tendinite, o que começou a incomodar. Resolvia com palavras como “Vamos, você consegue, não desista! Não há dor nenhuma, preocupe-se com isso quando a prova acabar!”, e imaginando-me atravessando a linha de chegada, feliz e emocionada, festejando com meus amigos. Ao pensar nisso as lágrimas já rolavam de meus olhos. Eu não poderia sucumbir.
E foi o que fiz. Assim como na meia, aproveitei os momentos em que encontrava os personagens da Disney, entrava na fila para tirar fotos (saltitando o tempo todo, para não esfriar), e retomava minha corrida. Os locais por onde passamos eram lindos, lembravam paisagens de filmes, com lagos, árvores, campos com grama aparada. Havia também as intervenções da própria organização, como as bandas escolares, balões coloridos, DJs, caixas de som tocando músicas animadas etc. Continuei no meu ritmo e, apesar das dores musculares, do frio e da dor no pé, esquecia-me delas e, fosse o que fosse, estava sempre feliz e sorrindo. Ficava orgulhosa por, faltando um terço da prova, não ter tido câimbras, como várias pessoas, inclusive experientes, com as quais cruzei pelo caminho. Não estava tinha calculado em milhas o ponto exato em que daria de cara com O Muro, mas, quando cruzei a milha de número vinte, dei-me conta de que havia passado por há tempos e que nem havia percebido!
Foi um sopro de energia quando entramos no Animal Kingdom. Era um lugar lindo, lembrava um parque ecológico. Foi maravilhoso avistar, ao longe, a Árvore da Vida, e também o Everest, uma das principais atrações do parque. Em seguida rumei para o Hollywood Studios, onde havia agitação extra porque já estava funcionando, com visitantes, e todos vibravam com a nossa passagem. Sentia-me como a estrela de uma final de campeonato, tais eram os gritos e palmas do público por onde passava. O fato de ter o nome estampado no número de peito ajudava, pois as pessoas gritavam o meu nome e aquilo realmente dava um gás extra, e ao mesmo tempo fazia-me sentir saudades de casa, da minha família... Gostaria que pudessem estar ali, torcendo por mim também! O chapéu que eu usava também ajudava, já que várias pessoas gritavam “Go, Goofy!”, ou seja “Vai, Pateta!”. Era muito legal! Passei pela marca da milha 23 e percebi que dali faltavam apenas 3,2 milhas! Depois de pegar novamente a estrada, rumo ao Epcot, avistei a famosa a “Spaceship Earth” e sabia que o fim estava próximo. Na última curva antes da chegada, meus olhos já vertiam lágrimas e, então, dei de cara com um coral gospel americano, cantando “Haleluiah”, aí, realmente não me contive, chorando feito criança! Cruzei a linha de chegada em 05h05min. Sim, havia vencido o Desafio e, mas mais do que isso, a mim mesma, minhas dores, meus medos. Não havia desistido. Agora era capaz de muito mais do que eu já havia imaginado, e isso ninguém poderia tirar de mim.
A arquibancada fazia festa e meus olhos procuravam ansiosamente rostos conhecidos, mas estava tão cansada que não tinha forças para buscá-los por muito tempo. Logo segui o fluxo, recebi minha medalha, envolvi-me na manta térmica e fui atrás dos lanches (estava faminta!) e da minha bolsa. Queria chegar logo ao hotel, jogar-me numa banheira com água quente e relaxar. Fui para a fila dos ônibus, que estava mais tranqüila que no dia anterior. Para entrar, foi quase um novo desafio: parei ao dar de cara com as escadas. Falei para o motorista, meio sem jeito, “Wait a moment!” (Espere um pouco!) e puxei cada perna com as mãos, pois meus joelhos não dobravam sozinhos... Foi engraçado, as pessoas que estavam no ônibus sorriam, mas estavam com aquela cara de que tinham feito a mesma coisa. No hotel, a entrada estava repleta de balões e dei de cara com amigos da Equipe Tavares que, juntamente com o pessoal do hotel, bateram palmas e gritaram parabéns quando entrei. Fiquei muito feliz. Ao chegar ao quarto, percebi que meu corpo inteiro doía – cada centímetro, só de encostar.
Era muito louco aquele sentimento, um misto de dor e euforia, de esgotamento e satisfação. Aquela sensação nenhum depoimento, nenhuma revista era capaz de descrever. Testar a mim mesma tinha sido, mais que um exercício, um aprendizado sobre minhas capacidades, minhas forças. Eu havia crescido um pouco mais. E o mais engraçado: já ansiava por mais. Agora eu era uma Maratonista. Depois disso, ainda fizemos vários passeios pelos parques, além das compras. Porém, o mais inesquecível para mim foi, sem dúvida, a corrida. Lembrava do frio, das dores, das alegrias, do público; da sensação de vitória a cada milha percorrida, da saudade da minha família ao ver as torcidas gritando o nome do filho, do irmão, do amigo; dos brasileiros e suas histórias que encontrei pelo caminho; da magia a cada curva, a cada parque, a cada personagem que se fazia vivo, animando o percurso. Um lugar mágico para uma prova mágica, a Maratona.


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