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Iron Man em Florianópolis
05/06/2009

Por Reginaldo Corrêa

I´m an IronMan

Quarta-feira, 27/08/09, eu e minha família rumamos para Florianópolis (Jurerê Internacional) para o que seria o meu maior desafio em provas de Endurance, o IronMan Brasil com seus 3,8km de natação, 180km de bike e 42km de corrida.
Foram mais de 4 meses de uma preparação extremamente rígida, nadando em represa e mar, pedalando em estradas, fazendo longos de corrida de 36km, sessões de musculação, além de cuidados na parte alimentar com um nutricionista. Dois períodos de treinamento, manhã(madrugada) e noite, sempre com duas das 3 modalidades por dia.
Para uma prova deste tipo, nada se consegue sem o apoio da família, pois você acaba ficando muito ausente, e neste sentido só tenho a agradecer a minha maravilhosa esposa Raquel e meus dois lindos filhos Mateus e Letícia.
Para quem não conhece o que é um IronMan http://www.ironmanbrasil.com.br/br/2009/historia.asp , é a prova de triathlon mais longa do mundo. Há 26 edições pelos 5 continentes, e todas absolutamente no mesmo formato, começando às 07:00h e terminando à meia-noite (limite 17 horas).
Dia 31/05/09, às 05:00h da manhã já estou próximo a largada para a pintura do número, que é feita nas pernas e nos braços de cada atleta.
06:40h caminho para a área de largada, e o mar que até dias anteriores estava uma ‘piscina’, resolve dar suas caras e ficar agitado.
07:00h tiro de largada, e 1.500 malucos pulam no mar e começa o grande desafio.
Na natação de 3.800m têm-se que circundar 4 bóias em formato de M. Faz-se as duas primeiras totalizando 2.100m e retorna-se para a praia, onde corremos aproximadamente uns 70m e voltamos para o mar para os 1.700m finais.
Já nos primeiros metros percebo que não vou ter vida fácil, pois entre as braçadas dos demais competidores e o agito do mar, engulo água além do normal e a respiração insiste em querer não normalizar. Passados uns 400m percebo o mar mais agitado e a primeira bóia, que havia se soltado pouco antes da largada forçando a organização a enviar mergulhadores para prendê-la, parece cada vez mais longe.
Meus óculos embaçam e o esforço aumenta. Quando finalmente chego na primeira bóia, entendo porque ela havia se soltado. Havia uma forte correnteza próxima e quando tentei circundar a bóia acabei entrando por baixo dela e quase prendo a perna esquerda nas amarras. Faço a volta por baixo d´água, obviamente engolindo mais água e cansando mais do que devia. Agora parto para a segunda bóia, que na teoria estaria a 150m da primeira, porém quando a primeira bóia se soltou, os mergulhadores a fixaram mais longe, e os 150m tornaram-se certamente mais que 300m.
Consigo contornar a segunda bóia e rumo para a praia para finalizar a primeira perna da natação. Como tenho pressão baixa, levantar da água e andar é terrível pois a sensação de tontura é inevitável. Levanto da água, ando os 70m um pouco zonzo, aproveito para tomar uma copo de água oferecido pela organização, lavo o óculos para melhorar a visualização, e sigo para a perna final que mal sabia eu, seria a pior parte da natação. Como o mar continuava bravo, havia marolas altas que dificultavam a visualização desta terceira bóia. Os óculos embaçam novamente e avisto a bóia 3 e vou ao seu encontro. No meu estilo de natação, costumo dar em média 10 braçadas e olhar para a frente para me localizar, porém toda vez que fazia a visualização a bóia parecia estar indo mais para o mar aberto, o que me forçava a corrigir a trajetória. Já quase chegando na bóia, surge um caiaque com um dos fiscais da natação e me avisa que estou indo para o local errado. Surpreso, paro e insisto que ele estava equivocado, quando novamente o fiscal me chama a atenção e diz para eu observar direito para ver que aquela bóia estava em cima de um rebocador. O que havia acontecido é que um rebocador da organização, com medo que a bóia 3 se desprendesse devido ao mar bravo, como aconteceu com a bóia 1, foi até próximo do local e quando viu que tudo estava em ordem, rumou para a parte mais externa para obviamente não ‘atropelar’ os nadadores, e eu e mais vários outros nadadores seguimos esta bóia como orientação. Quando vi a correta bóia 3, percebi que ela estava a uns 300 metros de minha posição e aí fiquei muito preocupado pois o tempo estava passando e não poderia estourar o tempo limite da natação que é de 2:30h.
Agitado, tento forçar para chegar na bóia correta e aí acontece o pior para qualquer nadador, a famosa e temida cãibra. Isto vez ou outra me aconteceu nos treinos de piscina, nas viradas olímpicas e eu já sabia o quão terrível era esta dor. Paro novamente, fico na posição vertical e tento tirar a cãibra. Neste momento minha pressão, que como disse é baixa, resolve ser coerente e baixar, e começa a me dar a sensação de calafrio e fome. Como me conheço, já preparado para esta situação, levo um gel de carboidrato na manga da roupa de natação e aquela era a hora de usá-lo. Ao buscar o gel, outra terrível surpresa, o gel havia caído. Aí por um instante vi todo meu esforço e treinamento ir literalmente por água abaixo e não podia chamar o caiaque, pois no IronMan qualquer ajuda externa significa desclassificação. Naquele momento pensei na minha família que tanto fez para que eu estivesse ali, em todos os treinos malucos que tinha feito, e por tudo isto não poderia desistir. Lembrei também de uma reportagem que havia lido um dia antes, que dizia que em um IronMan deve-se controlar apenas as coisas controláveis e se adaptar as demais. Foi então que tive a idéia de beber a própria água do mar, que por ter sal, elevaria minha pressão, e foi o que eu fiz. Esperei aproximadamente 5 minutos e comecei a nadar sem bater as pernas por causa do medo da cãibra voltar. Consigo finalmente contornar a bóia 3 e a bóia 4 e agora só falta chegar na praia e passar com o chip (preso no tornozelo) a tempo de não ser cortado. Vejo outro caiaque e pergunto qual a melhor rota a seguir, visto que havia ali outra correnteza. O fiscal me diz para ir em direção a um balão branco e é o que faço. Naquele momento só enxergava o tal do balão branco. Reduzi o número de braçadas para visualização, e a cada 6 braçadas olhava para ver se a rota estava correta. Aproximadamente 200m da praia, não vejo o pórtico de chegada e já estava me decidindo a sair na praia e caminhar até onde ele estivesse. Neste momento vejo outro fiscal, e digo da minha intenção e ele fala que isto não é permitido e diz que a bóia branca que eu estava seguindo não era aquela fixada na praia e sim a presa no mar, que felizmente estava a uns 100m. Acho que foram os 100m mais rápidos que nadei, e quando finalmente sinto que já dava pé, me levanto e aí a tontura vem. Fico imóvel verticalmente por uns 15 segundos e tento correr mesmo na água para o pórtico, que consigo cruzar com 02:24h, 6 minutos antes do tempo estourar, e olha que estava prevendo fazer a natação abaixo de 01:30h. Certamente fiz uns 4.200m, não só eu como vários outros nadadores, e alguns deles infelizmente não conseguiram cruzar o pórtico no tempo limite.
Após passar o pórtico, há pessoas da prova que te esperam para ajudar a retirar a roupa de natação. Feito isto dirijo-me para a tenda da transição para colocar os trajes para o ciclismo, que consiste em duas voltas de 90km.
Por tudo que aconteceu na natação, e por estar com a perna dolorida pelas cãibras, faço os primeiros 90km em ritmo inferior ao que treinei, e cauteloso não forço nos 90km finais. No ciclismo perco garrafa com meus preparados para reposição isoeletrolítica, comprimidos receitados pelo nutricionista caem na hora de tomar, e perco um cartucho de CO2, que usaria na eventualidade de um pneu furar. Mesmo com estes ‘senões’, termino o ciclismo em 06:36h, porém mais de 50 minutos acima do tempo que imaginava fazer, contudo dentro do limite estipulado.
Novamente entro na área de transição, troco de roupa e agora parto para a maratona, composta de uma volta de 21km com subidas e descidas expressivas, e duas voltas de 10,5km, estas planas.
Por ter me poupado no ciclismo, me sobra perna para a corrida e começo a passar um monte de gente que terminou a natação mais de uma hora na minha frente.
Faço a maratona feliz, já com a certeza de que terminaria meu primeiro IronMan e realizaria um grande sonho, o que acontece após 14:24h.
Além de uma prova difícil, foi uma grande aventura e uma enorme superação.
Pra finalizar, aproveito para agradecer a todos que torceram por mim, e reforçar meu obrigado a minha amada esposa e queridos filhos, que nadaram, pedalaram e correram comigo nestes 226km.


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