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A DIVERTIDA MARATONA DE LONDRES
09/05/2008

Por Marcelo Jacoto

Em 2.007, resolvi correr na cosmopolita cidade de Londres por indicação de colegas e por ter sido seduzido pelos comentários de que esta seria uma das maiores corridas de 42.195 metros do planeta (a Maratona de Londres integra o circuito das cinco grandes maratonas, ao lado de Boston, Berlim, Chicago e Nova York), haja vista a impecável organização e o número de participantes (46.500 corredores, que já começam a disputar uma inscrição quase um ano antes da realização da prova, já que mais de 96 mil pessoas solicitaram inscrições para esta 28ª edição). Felizmente, pude comprovar tais informações e ainda constatar que a Maratona de Londres apresenta um percurso predominantemente plano e um público muito animado e barulhento.

A FEIRA

No meu primeiro dia em Londres (sexta-feira, 11 de abril), logo após deixar as malas no hotel, me encaminhei em direção ao Excel Exhibition Centre, pavilhão de eventos localizado na Docklands Railways Station (região leste de Londres), a fim de retirar o meu kit de participação e conferir a feira da maratona. Confesso que tinha viajado com uma certa preocupação, pois não havia recebido a confirmação da inscrição pelo correio e nem pelo site oficial da prova. Porém, chegando à feira e já me acostumando à fina garoa e às baixas temperaturas da cidade, me encaminhei ao balcão “Trouble Desk”, apresentei o meu passaporte e fui logo direcionado aos guichês de retirada com numerais a partir de “50.000” (!). Naquele momento, constatei que a organização da prova reuniu todos os estrangeiros amadores com os últimos números, a fim de concentrá-los numa única largada, a de cor azul (a Maratona de Londres possui três largadas: azul, verde e vermelho). Na verdade, os inscritos com números entre 501 e 28.000 e 54.251 e 59.000 ficaram com a largada azul; os corredores com numerais de 28.001 a 33.250 foram designados para a área verde, e os atletas com números de 33.251 a 54.250 foram contemplados com a cor vermelha.

Retirado o kit (apenas chip, número de peito e adesivos para fixação do chip), fiz a confirmação dos dados, cadastrei meu e-mail para receber os resultados e fotos da prova e adentrei na feira pelo estande da Adidas, uma das patrocinadoras oficiais da corrida. Foi um pouco decepcionante não encontrar muitas opções de roupas e suvenires (não havia nem mesmo bonés com o logotipo da prova). Os numerais em branco disponíveis para o público escrever mensagens de apoio e expressar a emoção de participar de uma maratona foram o ponto positivo do espaço.

Seguindo adiante pela feira, me deparei com as principais marcas esportivas de tênis e equipamentos de corrida (Nike, New Balance, Mizuno, Asics, Garmin), revistas (Runner’s World), carboidratos, o isotônico da prova (Lucozade), estandes de maratonas e provas ao redor do mundo (Paris, Berlim, Roma Amsterdã, Lauzanne, Tóquio, Atenas, Barcelona, Veneza, Budapeste, Dublin, Maratona do Sol da Meia Noite, dentre outras). No estande da Comrades Marathon, tive a oportunidade de conversar com um expositor, que destacou o expressivo número de brasileiros que haviam corrido a prova sul-africana em 2.007. Os destaques ficaram por conta do estande de cães guias (com apresentações ao vivo), de um sorteio que garantia ao felizardo tênis de corrida grátis por toda a vida, de um jogo de videogame que simulava corrida de pista (com concorrentes de peso, como o simpático Sonic), da massagem no estande da Reebok (paga, é claro!) e do espaço que celebrou os 100 anos da distância dos 42.195 metros (para quem não sabe, as maratonas tinham distâncias próximas a 40 km até 1.908, quando o percurso passou a ter a distância fixa 42.195 metros nos Jogos Olímpicos de Londres. A mudança foi feita para que a família real britânica pudesse assistir ao início da prova do jardim do Castelo de Windsor. Os visitantes puderam celebrar a data adquirindo um livro comemorativo ou tirando uma foto ao lado do trófeu de 1.908, após pagar 10 libras) e do “Pasta Party”, local em que os corredores e visitantes degustavam um almoço/jantar honesto a qualquer hora pela bagatela de 5,99 libras. A refeição era composta de pão, pene servido em um copo de isopor (!), garrafa de água, iogurte e maçã, e os corredores foram brindados com apresentações e palestras sobre a maratona. Uma faixa da marca de água que patrocinava a maratona destacava, próxima à saída, a grandiosidade da corrida com a seguinte frase: “Mais de 35 mil corredores irão beber mais de 800 mil garrafas de água no dia da corrida. Isto equivale a 12 piscinas olímpicas”. Também merece menção especial a presença das inúmeras associações que arrecadam donativos para pessoas que sofrem dos mais diversos tipos de doenças (câncer, diabetes, leucemia, autismo, dentre outras) e que sempre marcam presença na Maratona de Londres, sendo que muitas das inscrições da corrida são reservadas a estas organizações, e seus corredores (que participam da prova com a camiseta das associações) só obtém a confirmação de sua inscrição após arrecadar um valor pré-estabelecido de donativos e contribuições.

A MARATONA

Como já esperávamos, o domingo do dia 13 de abril de 2.008 amanheceu muito frio em Londres, com temperatura que nada lembrava o calor anormal que castigou os participantes da edição de 2.007. Enquanto os colegas de hotel resolviam suas últimas dúvidas acerca da roupa a ser utilizada na corrida (camiseta de manga comprida, gorro, luvas, calça ou short, etc.), fiz um leve café da manhã e fui ao meu quarto conferir os últimos detalhes antes de me encaminhar para o local da largada. A organização da prova recomendou aos corredores o embarque gratuito de trem para melhor acesso à concentração das largadas, sendo que seis estações operaram com horários especiais para atender à demanda. Eu e mais seis corredores brasileiros, além de outros estrangeiros, embarcamos em um ônibus especial, que saiu do hotel até o parque de Greenwich. Fizemos uma tranqüila viagem de quase meia hora, observando as ruas já interditadas de bairros mais afastados do centro de Londres.

Chegamos às 7 horas, quando o parque e o grandioso campo que abrigaria os corredores ainda estavam bem vazios. Aos poucos, uma leva interminável de atletas preencheu e coloriu o gramado. Os atletas confraternizavam entre si, contemplavam um telão e três grandiosos balões infláveis, visitavam os “urinódromos”, alongavam, tentavam se proteger do frio e deixavam seus pertences nos caminhões de guarda volumes. Às 9 horas foi dada a largada do pelotão de elite feminino (que neste ano sofreu a baixa da tricampeã e recordista da prova, britânica Paula Radcliffe) e às 9h25 saíram os cadeirantes. Já se aproximava das 9h45min (horário da elite masculina e do “povão”) quando me encaminhei para a largada, dividida em “zonas”, estabelecidas de acordo com o tempo declarado pelo atleta da ficha de inscrição. Fiz todo o possível para espantar o frio (a temperatura estava abaixo de 10° C) e pude conferir os primeiros corredores fantasiados antes mesmo do tiro inicial, que foi executado no horário, como manda a pontualidade britânica.

A largada foi um tanto quanto lenta, haja vista a quantidade de corredores (mesmo havendo a divisão em três largadas) e as ruas estreitas. Após 200 metros, um fato inusitado: todos os corredores literalmente pararam, tal qual um carro quando se depara com um semáforo vermelho. Passado o susto inicial e a certeza de que a Maratona de Londres não é uma das corridas mais indicadas para “baixar tempo”, prossegui desviando dos mais lentos, ao som de “Lady Madonna”, canção dos Beatles, tocada por uma bandinha encarregada de animar os participantes. Antes de alcançar o primeiro quilômetro, vislumbrei o encontro com os corredores da largada verde e avistei Buster Martin, um senhor inglês de 101 anos que ficou mundialmente famoso em março de 2.008 por completar a meia maratona londrina de Roding Valley com o tempo de 5 horas e 13 minutos. Naquela oportunidade, Buster prometeu completar o percurso da Maratona de Londres, ao passo que alguns veículos de imprensa questionaram sua idade, afirmando que ele teria nascido “apenas” em 1.913. O certo é que Mr. Martin completou os 42.195 metros (sempre acompanhado por câmeras de TV) com tempo superior a dez horas de prova, pleiteou um lugar no Guinness Book e ainda respondeu aos que duvidam de sua idade que só ele sabe o quanto já viveu.

Os corredores da largada vermelha encontraram os demais colegas após a terceira milha. Nos quilômetros seguintes vieram os primeiros postos de hidratação (água a cada 3 milhas e isotônico nas milhas 5, 10, 15, 19 e 23). O público já se mostrava presente, sempre animado, em todos os trechos e dos dois lados da rua (estima-se que um milhão de pessoas foi às ruas de Londres nesta manhã para prestigiar e incentivar os corredores), alguns gritando “Brasil” ao avistar a minha camiseta. Já na quarta milha é possível visualizar o rio Tâmisa (o percurso acompanha o rio no sentido leste-oeste, depois inverte de sentido quando os corredores atravessam para o lado norte de Londres, e termina finalmente na parte oeste da cidade).

Após uma hora e meia de prova, a chuva londrina pediu licença e deu o ar de sua graça: a água veio forte e a temperatura caiu bruscamente (os termômetros marcavam por volta de 6° C). Meus dedos estavam endurecidos quando tentei beber o isotônico (cuja embalagem era de fácil manuseio) e paguei o preço de correr com camiseta regata, sentindo muito frio. O público, surpreendentemente, não arredou o pé e continuou a marcar presença e a fazer muito barulho. Estava no 17° quilômetro da prova quando avistei seis guerreiros massai, oriundos da Tanzânia, que correram com suas vestes de guerra para arrecadar fundos à sua comunidade. Os atletas pitorescos (eles afirmaram na imprensa que estavam bem treinados, pois cuidam do gado e caçam leões diariamente na terra natal) conquistaram a simpatia dos londrinos, mas somente quatro deles terminaram a prova (com o tempo de 5 horas e 24 minutos), sendo que um integrante da “tribo” passou mal e foi acompanhado por um compatriota até o hospital. Sem dúvida, um momento memorável da prova.

Mais adiante, a chuva deu uma trégua e a temperatura esquentou um pouco. A animação dos espectadores, no entanto, não variou, continuou no máximo. Ao passar por uma casa, senti a empolgação de moradores que colocavam “Run to the Hills” da banda de heavy metal Iron Maiden, no último volume. Mas o momento mais especial do percurso ainda estava por vir: mais precisamente na 12° milha (quase 20 quilômetros percorridos) atravessamos a Tower Bridge, um dos principais símbolos de Londres: a ponte que cruza o Tâmisa e fica ao lado da Torre de Londres, e que se abriu tantas vezes no passado para liberar o tráfego marítimo. A ponte-cartão postal estava completamente tomada pelo público, que incentivava os corredores de forma bem barulhenta e divertida. Depois da prova, fui informado de que houve um pequeno desvio de percurso na Tower Bridge devido a ocorrência de um vazamento de gás próximo à ponte.

Em seguida, alcançei a marca do 22° quilômetro em uma larga avenida (The Highway), cuja pista oposta marcava o retorno da prova (altura do 35° Km), já ocupado pelos corredores mais velozes. Uma banda formada por meninas executava “Dani California” do Red Hot Chili Peppers. Estava a caminho do bairro indiano de Londres. Encontrei um holandês pelo percurso e trocamos informações sobre a Maratona de Amsterdã.

Com pouco mais de 33 quilômetros rodados, retornamos para “The Highway”. O percurso estava mais livre agora, já que muitos participantes (muitos deles, fantasiados) sentiam a maratona após a “barreira dos 30 quilômetros” e as mais de 3 horas de prova, e começavam a andar. Dentre eles, um sujeito baixo que insistia em correr descalço! Nesse instante, olhei para o relógio e fiquei satisfeito em verificar que mantinha o ritmo até o momento, sem dores musculares e com a certeza de que poderia bater o meu recorde caso conseguisse administrar minha passada até o fim. Já estava a menos de 7 quilômetros do final, percorrendo a região central da cidade.

No 40° quilômetro, já a caminho do Palácio de Buckingham (palco da chegada), o corredor é brindado com o imponente Big Ben e o vizinho Parlamento após margear o Tâmisa por quase 4 quilômetros. Nesse instante, já com 4 horas de prova, fui brindado novamente com a chuva (de granizo) e o frio, que voltavam para reivindicar a atenção do público, que, por sua vez, não perdia o entusiasmo de incentivar os atletas nas milhas finais. Debaixo de uma forte garoa, avistei o St. Jame’s Park, atravessei a praça central que marca a troca da guarda do palácio real e corri as “jardas” finais (conforme marcação britânica), para cruzar a linha de chegada com 4 horas, 14 minutos e 48 segundos, minha melhor marca na distância.

Pausa para foto, entrega de medalha e camiseta “finisher” de dry fit, frutas, kit com água e isotônico (a hidratação foi perfeita durante toda a corrida), retirada dos pertences no guarda-volumes e caminhada dolorosa para a “área de repatriação” (ponto de encontro dos estrangeiros). A dispersão foi tranqüila (apesar do grande número de pessoas), com várias estações de metrô (gratuito para os corredores) próximas. Tendo em vista a nova trégua dada pelas nuvens de Londres, voltei ao Big Bem para assistir àqueles que ainda não haviam terminado a prova e me surpreendi com a grande quantidade de concluintes com mais de cinco horas de prova (não obstante o tempo limite de seis horas), muitos deles animados e fantasiados (havia gente fantasiada de mulher, vaca, frango, abelha, maçã, trajada como o personagem do cinema “Borat” e seu característico “porta-saco”, palhaço, homem-aranha, batman, camelo, telefone, robô, rinoceronte, etc.), lembrando muito a nossa São Silvestre.

Na elite, a prova foi vencida novamente pelo queniano Martin Lel (atual campeão da Maratona de Nova York e 1° lugar em Londres também em 2.005 e 2.007), com a fantástica marca de 2 horas, 5 minutos e 15 segundos, recorde da prova. Samuel Wanjiru (Quênia, 2°) e Abderrahim Goumri (Marrocos, 3°) também não deixaram por menos e fecharam com 2:05:24 e 2:05:30 respectivamente, marcando esta edição como a mais rápida da história da Maratona de Londres. Irina Mikitenko (Alemanha, 2:24:14), Svetlana Zakharova (Rússia, 2:24:39) e Gete Wami (Etiópia, 2:25:37) compuseram o pódium feminino e ratificaram o alto nível desta prova, não obstante a realização das Maratonas de Roterdã e Turim no mesmo dia. O britânico Davie Wer faturou na categoria de cadeirantes com 1 hora, 33 minutos e 56 segundos. O deficiente visual Dave Heeley concluiu sua sétima maratona com 5 horas e 20 minutos. O Brasil foi representado por 18 concluintes.

Enfim, a Maratona de Londres é uma prova rápida (apesar de ser muito estreita em seus primeiros quilômetros e possuir muitos corredores festivos dentre seus 34.292 concluintes), que vale a pena participar, em função da beleza natural da cidade, do clima festivo e do público extremamente acolhedor. Portanto, se você pretende viver esta experiência, corra (literalmente), pois as inscrições para o dia 26 de abril de 2.009 devem se esgotar rapidamente. Maiores informações em: http://www.london-marathon.co.uk/


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