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Um dia inesquecível na Ultra Maratona
11/04/2008

Por Reginaldo Corrêa

O dia amanheceu nublado, e como sofro muito com calor imaginei que isto era um bom presságio.

O período que antecede uma Ultra é muito legal pois encontramos todos os que curtem estas distâncias (que sempre são os mesmos), e eu como um novato tirei fotos com todos os famosos que conhecia.

A primeira mudança de última hora deu-se no trajeto.

Devido a um problema da Sabesp, o percurso que seria de 5km de ida e 5km de volta, ficou reduzido a 2,5km de ida e 2,5km de volta.

A ansiedade deu lugar a preocupação, mas procurei usar isto a meu favor, pois me convenci que iria ficar menos tempo sozinho.

Largada pontual às 07:00h e lá vamos nós para um Ultra-desafio, correr 12 horas ou tentar completar os 100km antes disto.

Minha esposa Raquel já de prontidão e preocupada, procurava se entreter com as fotos.

Eu, sem correr desde o dia 09 de Março devido a uma tendinite, confiava na minha recuperação, no que havia treinado antes da lesão, com longos, e que longos de 40km e 42km, nas sessões de fisioterapia e nas aulas de musculação e bicicleta.

Para concluir a prova no tempo previsto teria que fazer no máximo 7:12min/km, uma moleza no começo, mas uma dificuldade enorme depois dos 50km.

E lá vamos nós, 10km, 20km, 30km, 40km, 50km e justamente aí o tempo de 7:12min/km foi pro ‘beleléu’. O relógio que agora também era um pseudo-inimigo mostrava 7:40min/km.

Controlei mais alguns quilômetros mas quando vi que o tempo não baixava, relaxei e parti para o plano B, que era fazer o máximo de quilômetros possível dentro de 12 horas.

Adorava quando passava no ponto de largada, pois via minha esposa e recebia o incentivo dos amigos da equipe, e isto me fazia querer voltar logo.

A cada volta me preocupava com minha lesão, pois isto era a única coisa que poderia me fazer parar, dada a minha determinação em concluir a prova, e felizmente ela sequer se pronunciou.

Lembrei de tantas coisas a cada volta e 3 frases me vinham sempre:

“Se tiver que correr corra, se tiver que andar ande, se tiver que rastejar rasteje, mas por VOCÊ nunca desista”

“Doer vai doer mesmo, então sigo em frente e oro.”

“Se em uma ultramaratona você estiver se sentindo bem, não se preocupe pois logo irá passar”.

Por volta de 15:00h chegam meus filhos e minha afilhada, e isto me deu outro ânimo, principalmente quando correram comigo alguns metros com um cartaz que dizia que eu era o melhor corredor do mundo e que eu iria ganhar a prova.

Neste momento entendi perfeitamente porque estamos aqui, e que temos sim uma missão, e quão importante somos.

A dúvida que eu tinha em concluir desapareceu e embora sentindo as pernas pesarem e o cansaço aumentar, estava muito, realmente muito feliz.

Ás 17:00h começou uma fina garoa que refrescou todos os corpos cansados dos mais de 140 ‘guerreiros’ que ainda resistiam.

Naquele momento abri os braços, fechei os olhos e agradeci a Deus, por me dar o privilégio de estar ali, de poder sentir na plenitude o que é estar vivo, e por ter tantas pessoas que me amam.

Às 18:28h quando cruzei o pórtico estava completando 80km, um feito pra mim sem precedentes. Não pude completar mais uma volta pois os organizadores não permitiram, pelo fato de pelo ritmo que estava não conseguir completar mais uma volta no tempo restante.

Na verdade isto pouco importou, o que foi maravilhoso foi correr os últimos metros com meus filhos, esposa e amigos e por ter me superado.

Terminei cansado mas não exaurido, e se pudesse ficaria ali correndo muito mais horas.

Durante toda prova pude lembrar de tantos episódios de minha vida, das pessoas queridas que já se foram como meu pai, que por vezes pedi que me ajudasse a continuar, e sei que ele me atendeu e correu comigo.

É óbvio que uma ultramaratona é uma prova desgastante, que pode trazer complicações, e bláblábla´, mas deixando isto de lado, o fato é que você se transforma, se revigora e se encontra.

Obrigado amigos pelo apoio e alguns em especial faço questão de citar aqui: Alê, Nádia, Cris, Jacoto, Maria Gomes, Adesilde, Tavares, Marina, Valter, Gustavo, Sonia, Átila, Tomiko, Paulo Motta, Celso, Ken, Paulo Freitas, Rogério, Patrícia, Sylvia, Cezar, Milton, Beto, Agnaldo, Wagner, Sandra, Isadora, Junior, meus filhos maravilhosos Mateus e Letícia e um agradecimento especial a minha esposa que amo muito, pela paciência por suportar meus exaustivos treinos, por ficar 12 horas no Suporte na prova e por me ajudar a realizar este sonho.


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